segunda-feira, novembro 13

Ozu, a beleza do pormenor

A propósito de Chikamatsu monogatari (Mizoguchi) e Higanbana (Ozu) que vi ontem na companhia do mui ilustre Nuno:
Yasujiro Ozu foi um dos últimos mestres japoneses a ser conhecido no ocidente. Contrariamente a realizadores como Kurosawa e Mizoguchi, os filmes de Ozu não têm nada de exótico ou espectacular, dado que em Ozu não há lugar para samurais ou geishas e, talvez por esse motivo, não despertaram desde logo a curiosidade do espectador.
Apesar de Mizoguchi e Kurosawa serem realizadores de méritos incontestáveis – fico sempre alterado quando me lembro do suicídio elíptico de Sansho Dayu, momento que me lembra a desconcertante frase inicial de Camus n’O Mito de Sísifo: Apenas existe um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio – confesso que Ozu tem a minnha preferência. Quer pelo seu estilo absolutamente abstracto e depurado, mas, também, pela poesia que irradia do mise-en-scène rigoroso e espartano. Filmes como Chichi Ariki ou Soshun ao abordar muitos dos aspectos que a vida moderna impõe, como é o caso das rotinas e dos automatismos, marcam. Marcam também porque em Ozu a família - elemento que tende a desagregar-se à medida que a vida vai ficando mais vertiginosa - tem um lugar central, acabando por assumir o protagonismo.
Em Ozu a perfeição formal esconde uma complexidade desconcertante. Trata-se do cinema dos paralelismos, das subtilezas, das elipses, do humor fino e, sobretudo, da atenção ao pormenor. É o cinema que versa sobre o quotidiano e sobre a importância das reuniões entre familiares e amigos. O que equivale a dizer que é um cinema com pólos aglutinadores, tentando combater a desagregação que o progresso dita. Mas é, outrossim, um cinema dotado da capacidade de usar esse mesmo progresso, transformando-o em elemento dramático de grande intensidade, como é o caso dos comboios.
Yasujiro Ozu, o mesmo que Wenders considerou um anjo – a par de Truffaut e Tarkovsky – em Der Himmel über Berlin é, pois, um cineasta a ser conhecido. Porque o seu Cinema é belo e porque, apesar da sua abstracção, as situações quotidianas que aborda são universais, obrigando à reflexão sobre a vida tal como ela é.

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Gostei imenso de "Higanbana" pela sua subtileza. Subtileza na maneira de mostrar os sentimentos deste pai divido entre as apirações sociais que sempre teve para a sua filha e a sua vontade de a ver feliz. Subtileza também com todos estes pormenores da vida de uma família japonesa. E substileza da banda sonora, extraordinariamente delicada, em que se ouve constantemente uma música, criando um universo ao mesmo tempo quotidiano, concreto, e onírico, em levitação.

Foi muito interessante vê-lo no mesmo dia que "Chikamatsu Monogatari" porque ambos abordam a temática do "amor impossível", recusado pela figura do pai, mas em época diferentes e de maneira totalemente diferente. À grandeza dos sentimentos e à ideia de destino, no Mizoguchi, respondem o humor e a desdramatização.

Obrigado, ilustre Hugo! ;)

3:21 da manhã  
Blogger wasted blues said...

De Ozu só vi 'Tokyo Story', um belo filme sobre a família.

Este fica para descobrir noutras condições ;)

3:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Oui, Ozu porte beaucoup d'importance aux détails et aux objets. Il les utilise presque comme des personnages.

Ce que j'aime beaucoup aussi chez Ozu, c'est le point de vue qu'il choisit en plaçant la caméra au raz du sol. Je trouve que l'effet produit est intéressant. Il épouse complètement le point de vue des Japonais, qui vivent très près du sol (toujours assis par terre).

5:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Je vois que Nathalie comprend parfaitement le portugais maintenant :p

6:08 da tarde  
Blogger joseo said...

De Ozu gosto tanto, mas tanto que quase não me consigo expressar, mas se possivel fosse resumir: a simplicidade, os espaços vazios e claro a emoção, contida, contida...

é sempre uma emoção tremenda, só estou perfeiteitamente com Ozu no momento que vejo os seus filme...

"o espaço entre as coisas"

9:47 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ah ah Nun', t'as bien remarqué!
Mais je ne suis pas encore fière parce que je peux pas laisser de commentaire en portugais encore..
Désolée Hugo!

11:37 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Quanto ao ângulo em que Ozu filma as pessoas, deixando um espaço enorme acima da cabeça, fruto de uma filmagem feita de baixo para cima, a teoria que a nathako referiu é uma das possíveis.

De facto os japoneses passam a vida sentados rente ao chão, isso é verdade...

Mas já li outras... Diz-se também que ele estaria influenciado pelas ideias de Leonardo Da Vinci, nomeadamente pelo desenho do "Homem Vitruviano". Ou seja, se o homem esticar os seus braços, o centro do corpo eleva-se acima da cintura, daí o espaço de plano que Ozu deixava acima da cabeça...

Enfim... academismos...

9:31 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Nath: Dans un ou deux mois tu le feras :-) Mais tu comprends le portugais parfaitement maintenant :-)

Ursdens: no caso de Ozu pode-se dizer que é mesmo academismos à parte. Parece que também lhe criticavam os raccords (ditos "falhados"), mas ele sempre prefeiu fazer as coisas ao seu jeito.

9:50 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Obrigada Hugo para o encorajamento ;-)

9:54 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Tu n'as pas aucun besoin de remercier :-)

10:55 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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