um post falsamente reflectido e assaz desencantado:
À saída do Les Parapluies de Cherbourg, devidamente enleado pela magia das notas e pelas cores fulminantes, não deixei de ouvir um lamento duas filas atrás de mim: Isto é cantoria a mais. Horas antes ouvi algo ainda mais inaudito: Aquilo do Playtime é ridículo. Qual é o sentido de ver os disparates da quele velhadas? Do mal o menos, sempre me pouparam ao já clássico: Qualquer coisa é mais emocionante do que um filme do Manoel de Oliveira. É em alturas dessas que, interiormente, lanço um comedido e sopesado Bardamerda p'ra isto. Bardamerda irónico com o seu quê de tristeza, claro está.
Barbaridades destas são, tão-somente, o resultado da alimentação fast-food cultural: receber acriticamente idéias pré-concebidas e, acto contínuo, papagueá-las à exaustão, de forma convicta, contra qualquer pedaço de criação que, de alguma forma, tente lançar-se contra este lodaçal. Caro leitor de ocasião, se julga que isto é o mero lamento deste projecto de cinéfilo, faça as devidas adaptações a outros campos. Certamente verá que esses grandes génios literários como José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto ou Paulo Coelho* serão modelos de conduta contra "coisas" como um Pavese ou um Walser (é sempre conveniente explicar que não são nem marcas de vestuário nem automóveis, diz-me a experiência). Uma Velho da Costa, um Rui Nunes, uma Llansol ou uma Teresa Pereira. Uma Adília Lopes ou um Pimenta. Triste país de entretantos este que, estultamente, continua alegremente a exibir a incapacidade de pensar naquilo que lhe oferecem sem pensar nos méritos que têm.
Repara bem, paciente leitor, que o lamento nem é de agora: já o Eça terçava armas contra as sebentas. Isto que se vai ouvindo da, passe a expressão, vox populi é precisamente isso: a sebenta oferecida pelo-aparelho-instrumentalizado-no-luso-quintal-para-estupifidicar-o-cidadão, vulgo televisão.
* Lobo Antunes e Saramago já não entram nestas contas. Foram institucionalizados - a Agustina para lá caminha também - e qualquer um fala deles. Permito-me duvidar que muitos os tenham lido. Estudos empíricos, perdão, várias conversas informais em que este que ora vos escreve é o mínimo denominador comum, permitem-me deduzir tal facto. E não, desde já confesso que não li tudo de ambas as "instituições". Infelizmente, falta o tempo.