Domingo, Maio 25

In one word: emotion

Reaccionário, fascista, racista...o rol de epítetos contra Sam Fuller não acaba e, certamente, deve-se - este não é um caso virgem - à ignorância, à falta de conhecimento, à incapacidade de ver ou, pior, não querer ver. Bastaria o magnífico Pick-up on South Street para provar como tudo isso está errado: esqueçam os comunistas, a guerra fria e todo a realidade histórica que baliza o filme.
Em Pick-up on South Street o que conta é algo muito diferente: é a (falsa?) redenção de um pequeno criminoso, a ética de um submundo de pobres diabos, a sua lealdade. Fuller condensa toda a emoção na sua câmara: seja nos grandes planos de Widmark e Peters, seja no bailado visual que acompanha o espancamento de Peters ou uma luta no nos túneis do metro. Só isso conta. No fim, acendem-se as luzes, e, por momentos, acreditamos que temos direito à redenção, que a vida, apesar das agruras, é bela e que, ao virar da esquina, estará alguém pronto a salvar-nos. Lírico e...violento? Claro que sim. Tal como o quotidiano que nos envolve.
E até dá vontade de citar o outro carteirista, o de Pickpocket: drôle de chemin.

Quinta-feira, Maio 22

Momentos

Pura e simplesmente, há momentos sublimes.
Seja como na passada Terça, vendo Aida e Lorenzo trocando olhares, perfis esculpidos no céu longínquo e tendo essa imagem na mente noite dentro, por entre contratos e peças processuais que o dever obrigou a fazer, enquanto, à guisa de inspiração, sonhava, escutando Aida cantando para Lorenzo. Seja como hoje, em que este espectador incauto esbarrou com uma fila em pleno Monumental - à entrada e à saída do Cinema - para ver Henry Jones, Jr., vulgo Indiana Jones, desta feita em versão envelhecida.
O Cinema tem muitas magias, mas uma delas é, certamente, esta capacidade de fazer sonhar, de permanecer na memória para além do momento em que se acendem as luzes e somos abraçados pelo frio da rua ou, tão-somente, nos fazem tomar um pequeno banho de chuva para ver aquilo que já sabíamos: Indy acaba sempre bem. Como qualquer herói que se preze, tem sempre direito ao final feliz. Como nós, que acabamos por guardar cá dentro esses momentos singulares que ficaram gravados na memória.

Quarta-feira, Maio 21

Oficialmente rendido ao Cinema de Valerio Zurlini.

Domingo, Maio 18

Heresias, ou da acrítica

um post falsamente reflectido e assaz desencantado:
À saída do Les Parapluies de Cherbourg, devidamente enleado pela magia das notas e pelas cores fulminantes, não deixei de ouvir um lamento duas filas atrás de mim: Isto é cantoria a mais. Horas antes ouvi algo ainda mais inaudito: Aquilo do Playtime é ridículo. Qual é o sentido de ver os disparates da quele velhadas? Do mal o menos, sempre me pouparam ao já clássico: Qualquer coisa é mais emocionante do que um filme do Manoel de Oliveira. É em alturas dessas que, interiormente, lanço um comedido e sopesado Bardamerda p'ra isto. Bardamerda irónico com o seu quê de tristeza, claro está.
Barbaridades destas são, tão-somente, o resultado da alimentação fast-food cultural: receber acriticamente idéias pré-concebidas e, acto contínuo, papagueá-las à exaustão, de forma convicta, contra qualquer pedaço de criação que, de alguma forma, tente lançar-se contra este lodaçal. Caro leitor de ocasião, se julga que isto é o mero lamento deste projecto de cinéfilo, faça as devidas adaptações a outros campos. Certamente verá que esses grandes génios literários como José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto ou Paulo Coelho* serão modelos de conduta contra "coisas" como um Pavese ou um Walser (é sempre conveniente explicar que não são nem marcas de vestuário nem automóveis, diz-me a experiência). Uma Velho da Costa, um Rui Nunes, uma Llansol ou uma Teresa Pereira. Uma Adília Lopes ou um Pimenta. Triste país de entretantos este que, estultamente, continua alegremente a exibir a incapacidade de pensar naquilo que lhe oferecem sem pensar nos méritos que têm.
Repara bem, paciente leitor, que o lamento nem é de agora: já o Eça terçava armas contra as sebentas. Isto que se vai ouvindo da, passe a expressão, vox populi é precisamente isso: a sebenta oferecida pelo-aparelho-instrumentalizado-no-luso-quintal-para-estupifidicar-o-cidadão, vulgo televisão.
* Lobo Antunes e Saramago já não entram nestas contas. Foram institucionalizados - a Agustina para lá caminha também - e qualquer um fala deles. Permito-me duvidar que muitos os tenham lido. Estudos empíricos, perdão, várias conversas informais em que este que ora vos escreve é o mínimo denominador comum, permitem-me deduzir tal facto. E não, desde já confesso que não li tudo de ambas as "instituições". Infelizmente, falta o tempo.

Sábado, Maio 17

Encantar

Um Demy é,com efeito, uma coisa à parte. É a música, a cor, o sentimento latente, mas, para além de tudo isso, é uma câmara que paira fazendo-nos dançar etereamente por um mundos de sentimentos exacerbados. E mesmo quando parece que a lamechice vai estourar, mesmo quando julgamos estar no mais perfeito e banal romance cor-de-rosa, damos por nós rendidos ao encanto de uma nota que se faz ouvir vibrante ou dócil, ao travelling ou, tão-somente, ao rosto expressivo que enche o écran. Precisamente o golpe de asa que nos lembra que isto não é nem filme, nem musical, nem qualquer outra coisa. É uma coreografia irreal. É um Demy. Ponto final parágrafo.

Segunda-feira, Maio 12

Mr. November

Da última vez que tinha assentado arraiais na Aula Magna foi para ver o Doutoramento de alguém por quem tenho muito apreço. Tese brilhante e sova à altura, como mandam os manuais. Ontem, o espaço que "fazia lembrar a ONU" viu algo inaudito: a absoluta empatia entre os "examinandos" e o júri, um público que, ainda a coisa não tinha começado e já estava rendido à argumentação dos The National. Foi bonita a festa, pá. Muito mesmo.
I won't fuck us over, i'm Mr. November.

Domingo, Maio 11

É hoje

Sábado, Maio 10

Homenagem a Werner Herzog

Não me canso de dizer que cada coisa
pode ser o contrário do que é.

quando digo que cada coisa pode ser
o contrário do que é, sei perfeitamen
te o que digo e isso e isso que quero di
zer e não o contrário, embora o contr
ário também esteja certo, porque cada
coisa também pode ser o que é.

a função das coisas é ser aquilo
que se quer que elas sejam.

Alberto Pimenta, Metamorfoses do video, José Ribeiro, editor, 1986

Quinta-feira, Maio 8

Mudar de Vida

"Lembraste-me longe, esqueceste-me perto"

Eis um exemplo de um dos mais singulares casamentos: os diálogos de António Reis, que nos fazem cair na mais chã das realidades, temperada pelo lirismo subtil da palavra e da imagem, o "som feio" que Carlos Paredes sempre quis tirar da sua guitarra e a câmara de Paulo Rocha, que nos guia entre os pescadores do Furadouro, sempre entre a aparência de documentário e o melodrama de Adelino e Albertina.
Filme de extremos: entre os rostos esculpidos que lembram La terra trema, a profundidade de campo que os filmes "neo-realistas" de Rossellini popularizaram e o tom etnográfico que um certo cinema português sempre soube cultivar. Mas com um quid que o diferencia - é incrível como vemos um Portugal que não parece oco e forjado à custa da encenação - e torna quase único, mas não algo esotérico, apesar da influência japonesa, ou não encontremos planos que lembram Mizoguchi. Talvez, precisamente, a conjugação do trabalho de três personalidades tão díspares e uma simbiose quase perfeita de tanta e tão diferenciada influência.

Domingo, Maio 4

Uma conversa de Cinema...

...que acabou nos livros do Libertário Pacheco. Numa animada conversa com um prestável e cultíssimo alfarrabista, perante o meu folhear curioso de uns antigos cadernos de Cinema e de exemplares de O Cinéfilo, sai um provocador:
- Em coisas de Cinema, nada como cineastas cultos dotados com grande talento para a escrita.
- Ora nem mais - grunho, continuando a folhear os caderninhos.
- O César Monteiro, esse sim. Um Pacheco temperado pela graça de Hölderlin, a ironia de Guerra Junqueiro e o desencanto célininano. Por falar nisso, tenho aqui Céline e, se gostar, umas coisinhas do Pacheco...
- Pois, se for o Pacheco versus Cesariny não vale a pena, que já estou muito bem servido. O mesmo vale para o Céline. Para além do mais, era humor vitriólico e desencanto em demasia para um dia tão católico.
- (risos) Melhor, muito melhor. Veja lá isto:


Livros, perdão, livros e folhetim devidamente acautelados debaixo do braço, não fosse o Diabo tecê-las, a conversa continuou: Vítor Silva Tavares e a sua magnífica &ETC, histórias de Cardoso Pires e o inevitável regresso a Max Monteiro e às suas taras literárias. Resultado: Pacheco veio acompanhado dos 120 dias de Sodoma, do Divino Marquês. Um raccord curioso com o mote da conversa, por sinal.

Sábado, Maio 3

Certeza Existencial

Já se sabe que, de uma forma ou outra, todos nos reuniremos num qualquer círculo vermelho para decidir o destino. Mais do que essa certeza existencial, se há momento capaz de marcar em Le Cercle Rouge é uma cena "secundária" em que Jansen*, o ex-polícia decrépito, olha para um armário vazio, sorri e afirma que fechou os seus animais no armário. Apenas porque lhe foi dado um voto de confiança pelos cúmplices no assalto. Assim, sem grandes delongas, eis que Melville resume o elemento fundamental para o sucesso de uma qualquer tarefa.
* o facto de gostar muito de Montand enquanto cantor e de ficar sempre impressionado com Z! ou Le salaire de la Peur não tem nada a ver com isto.

Segunda-feira, Abril 28

Domingo, Abril 27

A reinvenção do Cinema

"La Nube: C'è una legge, Issione, cui bisogna ubbidire.
Issione: Quassù la legge non arriva, Nefele. Qui la legge è il nevaio, la bufera, la tenebra. E quando viene il giorno chiaro e tu ti accosti leggera alla rupe, è troppo bello per pensarci ancora."

Jean-Marie Straub e Daniéle Huilet, por assim dizer, filmaram parte dos belíssimos Dialoghi con Leucó (editados em Portugal pela Assírio & Alvim, na tradução de José Colaço Barreiros) em dois momentos distintos: em 1978 naquilo que é a primeira parte de Dalla Nube alla Resistenza e em 2005 com Quei loro incontri. De uma obra para a outra fica uma evolução que não é despicienda: abandonam-se os trajos antigos e passa-se para a roupa de trabalho. Dir-se-ia que Straub/Huillet procuraram adoptar o espírito dos Dialoghi, mostrando, assim, que o texto é uma verdadeira e própria realidade autónoma [leia-se independente da indumentária das suas personagens e dos artíficios externos que as vão decorando].
Diálogos que são altíssimas reflexões metafísicas a partir da mais simples situação quotidiana. Os deuses e as figuras mitológicas repescadas por Pavese falam, discutem, interrogam-se, mas, a final, quedam-se fitando o horizonte longínquo, como que interrogando-se sobre o que o Devir (e os Deuses, claro está) lhes trará. Na tensão entre o temor reverencial para com o desconhecido, para com as divindades e a sensualidade das cores, dos sentidos e dos prazeres, o Cinema reinventa-se, nasce e faz-nos descobrir a nós próprios.
Aqui, o texto impõe-sem marcando a cadência e o ritmo do filme, sendo que tal é feito de forma paradoxal: sob a capa do gesto aparentemente imóvel dos actores, sentimos toda a realidade envolvente (pássaros, vento,...), bem como a respiração de quem vai declamando Pavese. Sensualidade, em estado puro.

Curiosamente, Quei loro incontri é um título que pode funcionar como síntese deste Cinema de altíssima atitude ética: ao longo da sua obra, Straub/Huillet foram-se encontrando (e confrontando) com vários artistas, cabendo aos seus filmes mostrar o resultado desses encontros.

Ser-se reaccionário (e demagógico qb)

Falar bem do acordo ortográfico louvando o respeito pela oralização da escrita é, bem vistas as coisas, algo tão acertado como defender a pés juntos a magnificência de Ridley Scott enquanto realizador logo após ter visto (ou revisto) Blade Runner. Um disparate monumental, obviamente.

Sábado, Abril 26

Triple bill (caseiro)

Nicht versöhnt oder Es hilft nur Gewalt wo Gewalt herrscht (Straub/Huillet)
Dalla nube alla resistenza (Straub/Huillet)
Quei loro incontri (Straub/Huillet)

Ou de como bater na muralha de titânio, ficar a contemplá-la e, não contente com isso, atirar-me contra ela para a contemplar de novo.

Quinta-feira, Abril 24

Estado de espírito*

"(...)
What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
(...)"

T.S.Eliot, The Waste Land (1. The burial of the Dead)

* O Cinema volta daqui a algumas horas. Espera-se.

Quarta-feira, Abril 23

Personagens da 'Teca vs. Cinematecos

Pois, de facto existem uns belos cromos, especialistas em mandar calar*, no 39 da Barata Salgueiro. Como até tenho bom feitio, prefiro recordar aspectos pitorescos: uma senhor muito baixa que ri despudoramente em todo o santo filme que vê (era capaz de jurar que até em O Silêncio, de Bergman isso aconteceu), um grupo de idade relativamente avançada que se senta nos bancos a contemplar os cartazes e a discutir qual a actriz mais marcante: Bette Davis? Joan Crawford? Bacall? ou a fazer uns curiosos campeonatos que podiam chamar Eu já vi este e tu não? E que dizer de algumas senhoras de idade que, em plena fila para comprar bilhete, vão desfiando a história do "onde", "quando" e "com quem" viu o filme para o qual vai comprar o ingresso?
Mais do que os energúmenos que vão pululando pela Cinemateca, o que conta são aqueles que vão até lá por puro amor às imagens projectadas, seja como forma de escapismo a este mundo-cão, seja como divertimento ou distracção. São estes (e outros, claro) a que gosto de chamar, com o seu quê de irónico e de afectuoso, Cinematecos. São eles que transformam o velho Palácio numa espécie de pequena família onde os espectadores habituais acabam por se ir conhecendo, mesmo que muitas vezes não se falem. Assim mesmo. Com olhares e sorrisos cúmplices o mais das vezes. Prefiro esses hardcore anónimos a imbecis adeptos do silêncio. Afinal, são eles que acabam por dar algum encanto ao museu das imagens. Aliás, é por isso que, mesmo contra o que tal criatura poderá fazer ou dizer, que há que salutar atitudes como rir desbragadamente vendo La grande bouffe, por exemplo. Co'a breca, ver um filme não é o mesmo que cumprir um cerimonial religioso, embora tenha o seu quê de ritual, mas isso são outras histórias.
* isto lembra-me uma história curiosa, que, em bom rigor, permite definir o grosso dos espectadores dos cinemas ditos comerciais. Vai para dois anos, na integral dedicada ao François Truffaut, via eu La nuit américaine e um senhor, perdão, alguém decididamente mal educado, decide atender o telemóvel e pôr-se à conversa. Após uns belos (e merecidos) "cala-te com isso ou sai!", a criatura foi, efectivamente, convidada a sair por um espectador mais vigoroso. O leitor ocasional pode descansar, que eu fiquei absorto (dentro dos possíveis) e concentrei-me no filme. Só gosto de falar antes e depois do filme e não tenho feitio para mandar calar ninguém fora do meu contexto profissional.

Domingo, Abril 20

E esta, hein?

Definitivamente, gostar muito de Cinema leva a que às vezes se ouçam coisas extraordinariamente pitorescas. Um exemplo tirado da passada Sexta-Feira:
"Está para vir o dia em que tu ou um outro tarado cinéfilo qualquer não falem muito bem de um filme* que não tenha mais de dois mil espectadores"
* tudo isto a propósito de Coeurs, num almoço que, contrariamente ao que possa parecer, foi muito bem disposto.

Sexta-feira, Abril 18

Corações Solitários

É um labirinto de encontros e desencontros: a religiosa (falsamente) tímida, o mediador imobiliário desajeitado, o ex-militar obtuso e a sua noiva desencantada, o barman solitário, a jovem perdida em encontros falhados...todos e cada um representando, ao seu jeito, a solidão moderna, que Alain Resnais desenhou num filme onde pairamos num qualquer espaço que nunca descortinamos qual é. Afinal, não é isso o que conta. Tudo se resume ao drama interior e à extraordinária capacidade do Mestre francês em nos fazer esquecer os exteriores. Graças à sua mise-en-scène focamo-nos no reduto íntimo do Eu.
Como se isto não chegasse, fazer um filme agridoce sem nunca cair no exagero e, de forma tão simples, falar da mais básica necessidade humana: a projecção no Outro, encontrando a felicidade e criando uma união a dois, são, "apenas", sinais de que este é um filme extraordinário. Um labirinto de personagens, de emoções e sentimentos, devidamente emoldurados por uma neve persistente que nos parece fazer viver um sonho, contribuindo, assim, para o tom levemente irreal - e falsamente abstracto - desta grande obra.

Quinta-feira, Abril 17

Inutilidades, em raccords consecutivos

297 páginas depois, páginas de parto difícil e resultado de horas consecutivas sem dormir motivadas por leituras várias em vernáculo e em dialectos estrangeiros, mormente italiano e alemão, uma etapa da tese fechou-se. Venha agora a discussão daqui a uns meses...
Como convém celebrar, o escriba de serviço deslocou-se ao mais insuspeito dos sítios. Precisamente aquele onde nunca, jamais poderia ser encontrado. Reviu I Vitelloni, vernacularmente falando Os Inúteis, não deixando de fazer comparações entre o título luso da obra felliniana e alguns dos resultados da investigação que tinha encerrado horas antes.
Não há coincidências, dir-me-á um dos 3 leitores assíduos deste recanto. Talvez, respondo eu fugidiamente. Continuação de celebração. Afinal, após tanta página de dogmática jurídica, o Espírito pedia distracção e novos ares. Coincidência das coincidências, acabara de ser lançado Der Mann ohne Eigenschaften, de Robert Musil* na lusa tradução de João Barrento (facto esse que, só por si, motiva um distinto e sincero obrigado). Nova comparação, desta feita entra a ausência de qualidades de Ulrich e o resultado final de um escrito que, se calhar, não teve o período de maturação necessário. Ou isso, ou penso em demasia em coisas comezinhas.
* O primeiro volume está oficialmente devorado e o segundo, enfim, para lá caminha. Uma preciosidade. É nestas alturas que lamento o facto de o meu alemão ainda não dar para ler monumentos destes na versão original. Walser e Bernhard já constavam do meu "altar". Musil, desde Segunda, também. Em definitivo.

Sábado, Abril 12

Coerência, acima de tudo

É uma maçada, pois é*. Da minha parte, já fico contente se a rapaziada da crítica souber/conseguir adoptar um critério minimamente coerente nas classificações que dá aos filmes que vai vendo. Sou uma criatura pouco exigente, está visto. Melhor ainda, só mesmo se toparmos com uma conduta uniforme por parte do crítico. Neste campo, só há uma coisa que sempre me fez confusão: o recurso a florilégios e adjectivos em catadupa para, a final, sair a famigerada bola preta ou a estrela solteira.
Já se sabe que consciente ou inconscientemente, o gosto subjectivo vai pesar na classificação. Daí a exigência, idealmente, de coerência e de uma prosa bem articulada, isenta de contradições entre o texto e a correspondente sínte, vertida nas estrelas ou na falta delas.
* Não me refiro ao filme em questão, cujos méritos ou deméritos não posso avaliar porque, pura e simplesmente não o vi. À hora de entrar no Cinema, entre o filme de Reiner e o de Resnais, a escolha foi óbvia e não me arrependi minimamente. Bem pelo contrário.

Sexta-feira, Abril 11

É policial? Não. É celestial

"(...)Não vos deixo preplexos,
Meus amigos! E não temais! Os filhos da terra
receiam quase sempre o que é novo e estranho,
Ficar em casa, fechado em si, apenas é próprio
Da vida das plantas e do animal satisfeito.
Limitados ao que possuem preocupam-se
Com a sua subsistência, e mais longe não chega
O sentido da sua vida. Porém, finalmente
Têm de sair, esses timoratos, e com a morte regressa
Cada um ao elemento, para que nele
Reencontrem, como num banho, a frescura
De uma nova juventude. Aos homens foi dada
A grande alegria de se rejuvenescerem a si próprios(...)"

Der Tod des Empedokles, de Hölderlin na tradução de Maria Teresa Dias Furtado (Relógio d'Água, 2001. Excerto retidado de p. 155)

Segunda-feira, Abril 7

Não estou aí, de facto

É bom saber que Todd Haynes gosta de Fellini. Ao ponto de recriar cenas mil de Otto e Mezzo e de La dolce vita em I'm not there. Tirando o bom gosto cinéfilo, do filme não sobra nada de memorável: afinal, a música de Bob Dylan não entra nestas contas. Está muito acima. De "filme" fica só uma manta de retalhos com potencial para ser algo que não é. E é pena.

Segunda-feira, Março 17

Sábado, Março 15

Do vazio

Quando passamos dias a ver transeuntes do outro lado da janela, lá bem em baixo, correndo, andando, saltando rua fora e o mais perto que estamos da Vida é a recordação constante dos minutos iniciais de Jules et Jim ou os dramas de Guido Anselmi, é sinal que algo vai mal no reino.

Sexta-feira, Março 14

A afirmação absoluta

Expliquem-me isto, se fazem favor, como se eu tivesse 5 anos, fazendo, se necessário, um desenho/quadro justificativo. É que fazer afirmações de teor absoluto sem curar, sequer, de tentar justificar o porquê e, a final, escudar-se na subjectividade parece, manifestamente uma fuga em frente. Não tanto por se tratar de marcos, mas porque atitudes deste calibre, mais do que fomentar o diálogo salutar, são propensas a fomentar a agressão verbal (coisa que, obviamente, se desaconselha).
É óbvio que um dado filme nos toca mais do que outros. Tal facto deve-se, sobretudo, às próprias vivências pessoais do espectador e ao momento em que a obra é vista. Acontece que, fazendo uso de um mínimo de racionalidade, conseguimos topar se um filme é fundamental, perdão, diferente (para o bem e para o mal). Acontece, ainda, que cada um dos filmes elencados serviu de dínamo/propulsor para muitas grandes obras. Ver Cinema é educar o olhar, alimentar a curiosidade e, simultaneamente, fazer o curioso (inevitável) exercício de comparar A a B ou o plano de X que é recriado em Z.
Não me levem a mal, que isto não é por se ir "contra a história", mas sim pelo mero falar por falar. O que se aprecia é o debate de ideias e não tanto a afirmação seca. No caso do Bresson, acho, salvo o devido respeito, que é mesmo uma falta de decoro total: Au hasard Balthasar é uma lição constante do uso da elipse.

Quarta-feira, Março 12

Certeza inabalável

Há dois tipos de realizadores: os que cortam de forma brusca e os que, com um suave movimento de câmara, nos fazem dançar entre planos, deixando-nos no limbo entre real e onírico. Buñuel, homem dotado de bestiário infindável, é do segundo grupo e não há realizador que me surpreenda tanto ao movimentar a câmara como ele*.

* delírio semi-cómico provocado por nova (re)visão de Le journal d'une femme de chambre.

Domingo, Março 9

Pavese

Tão bem que tu me entendes (ou que eu me revejo no que tu escreves):
p.. 89: "Se, nesta selva de interesses que é a terra, dizeis que existe uma coisa boa, e seriam os entusiasmos por um ideal - que ideal, pergunto eu? - porque sois, então, os primeiros a atacar e a apelidar de delinquente quem não possui o vosso ideal?"
p. 120: "Os homens que têm uma vida interior tempestuosa e não procuram um desabafo na palavra, ou na escrita, são simplesmente homens que não têm uma vida interior tempestuosa.
Dêem uma companhia ao solitário e ele falará mais alto do que qualquer outro"
p. 153: "A desventura máxima é a solidão. É tão verdade que o reconforto supremo - a religião - consiste em encontrar uma companhia que nunca falhe - Deus"*
p. 224: "Nunca estivemos completamente sós no mundo. Na pior das hipóteses, tem-se sempre a companhia de um rapaz, de um adolescente e, pouco a pouco, de um homem feito - daquele que fomos".

Cesare Pavese, Ofício de Viver, Relógio d'Água, 2004.

Acabado isto, fiquei com vontade de voltar aos Diálogos com Leucó ou, em alternativa, ao belíssimo Quei loro encontri (que parte de alguns dos Diálogos), de Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet. Certamente uma necessidade súbita de pacificação interior e, consequentemente, com a selva em volta.

*Robert Walser, a dada altura d'O Salteador, sugere como sucedâneo/panaceia da solidão o Advogado. Certamente um pequeno delírio walseriano.

Z!

Contrariamente ao que o estado de semi-abandono deste antro possa fazer deduzir, estamos* vivos, tornando-nos lentos e miseráveis num qualquer recanto da terra. Continuamos a ver Cinema, a ler muito e a pensar - mal muitas vezes - ainda mais.
* estilo de escrita contaminado pela redacção simultânea de textos com fins académicos onde o plural majestático, esse estilo de escrita ligeiramente pretensioso que julga fazer lembrar ao leitor que é companheiro de pensamento do escriba, é regra.

Domingo, Março 2

Pensamento solto: D.O.A.

Fotograma de Kiss me, deadly

Há alturas em que os mais insuspeitos filmes nos fazem pensar no próprio umbigo: ver de enfiada D.O.A., de Rudolph Mathé e Kiss me, deadly, de Robert Aldrich é uma experiência cinematográfica curiosa e única. Desta vez não penso tanto na excelência da dita experiência, mas sim em algo mais prosaico: a aplicação ao real dos títulos de ambos e das temáticas versadas: neste mundo-cão que teima em viver a 150 km/h e onde, pelos vistos, trabalhar 10 dez horas por dia começa a virar regra*, dá vontade de dizer que estamos mortos à chegada (ou que vamos sendo mortos todos os dias à chegada a essa nova proletarização) e que vivemos numa qualquer paranóia colectiva que nos cega e impede de ver o Mundo em volta: ergam um qualquer lema e depois é esquecer o que conta, o Outro. Parece que o Homem teima em ver no seu semelhante um qualquer animal e não alguém igual.

*Marx, volta. Estás perdoado: precisamos de uma nova (re)leitura da História.