quinta-feira, junho 15

Havia um pai

Chishu Ryhu e Haruhiko Tsugawa em Chichi Ariki

Numa visita de estudo, uma criança, desrespeitando as ordens do seu professor, morre afogada num passeio de barco. O professor, apesar de não ter culpa, decide abandonar o seu ofício, considerando que falhou no dever de cuidar dos filhos dos outros. Deste modo, dedicar-se-á, apenas, ao papel de pai, educando o seu filho, Ryohei. Eis o ponto de partida para Chichi Ariki (Havia um pai) de Yasujiro Ozu.
Esta aceitação trágica do dever, tão cara à cultura nipónica, sublimemente exponenciada por Ozu será visível, também, nas relações entre Shuei e Ryohei. Veremos sempre o pai distante e zeloso, ávido por incutir disciplina no filho e desejoso para que este desenvolva um raciocínio lógico e matemático. Shuhei, o antigo professor de Matemática, deseja projectar no filho todo o seu saber de modo a que este suceda onde o seu pai falhara.
Será esta avidez pelo sucesso alheio - mas sentido como própio - que ditará a separação entre ambos. Ryhoei irá estudar para um colégio, enquanto que o pai rumará a Tóquio de modo a recuperar o desafogo económico de molde a poder custear a educação do filho. Havia um pai é um filme sobre o lado trágico da separação, a ausência de contactos e a necessidade do calor dos afectos. Veremos Ryhoei crescer alimentando a esperança de voltar a viver com o pai, enquanto que Shuhei mostrará sempre orgulho no filho (transformado em professor) e negará a união. Sempre com a esperança cega de querer o sucesso do seu rebento.
Haverá momentos de felicidade. Mas será uma felicidade fugaz como a vida que vimos apagar-se diante dos nossos olhos. Assim, a felicidade será sempre preenchida pelo vazio e pela esperança venturosa no novo reencontro.
Vimos pai e filho pescando em sintonia. A sintonia dos movimentos das canas, da atenção para com o leito do rio. A sintonia interrompida com a notícia da ida para o colégio interno. E vinte anos depois, reencontraremos essa mesma sintonia: pai e filho, numa alegria invisível e intraduzível por palavras. Uma sintonia apenas interrompida com a morte do pai, num longo e arrastado plano, em que Ozu não negou mostrar a face da morte.
Veremos Ryohei dizer: esperei vinte anos para viver com o meu pai. Pelo menos posso dizer que vivi com ele na última semana. A separação produziu este aparente paradoxo: o carinho e o afecto entre ambos cresceu avassaladoramente, mau grado nunca o terem expressado. Chichi Ariki é, também, um filme sobre união espiritual, tal como é um filme sobre o passado conforme indicia o título: Havia um pai, ...
O Pai, figura ausente e do passado, mas sempre presente na memória, para nos lembrar que existe, que se preocupa e que não deixa de pensar em nós. Nem que mais não seja em comunhão de espírito, mas com amor e carinho.