terça-feira, outubro 31

O Rio


The River é um filme de uma beleza indesmentível. Nela Jean Renoir dá-nos nova prova - como se tal fosse preciso - de todos os seus atributos enquanto cineasta.
Este é um filme sobre a Índia onde o lugar comum dos tigres e dos elefantes não tem lugar. É o filme que retrata a visão de Renoir, o espectador atento que procurou transmitir a todos a sua visão deste local remoto. É o filme da eternidade, da efemeridade e da beleza. Em The River, Renoir procura captar a vida em toda a sua pureza. Assim, apesar de estarmos perante uma obra da maturidade de Renoir - o que é plenamente verificável pela precisão e rigor dos travellings - esta é uma obra esperançosa. Mais do que um retrato outonal acerca da existência, Renoir, através da visão da jovem Harriet, procura mostrar-nos a beleza e o encantamento do Amor. Quer na visão das adolescentes, quer na dos seus progenitores, The River acaba por ser um conjunto de variações sobre um único tema, sempre com variantes, mas sempre com o tom humano que desde cedo marcou a obra do cineasta francês.
Contemplação. Eis a atitude dos habitantes do leito do rio. Daí que perante um espírito atormentado, em luta consigo e com o seu corpo, a resposta seja simples: não lutar. Mais do que uma atitude estóica, The River fica-se pela mera observação. Pela quietude. Mas também pelo assombro e pela omnipresença da espiritualidade. Mas também pelo onirismo, conforme se verifica na belíssima sequência da dança nupcial, onde os noivos incarnam duas divindades. Como contraponto, temos as sequências quase documentais onde os locais assumem o protagonismo.
Mas esta é, conforme já se disse, a visão da Índia de Renoir. Surge, assim, uma visão serena, de um estilo de vida contemplativo onde tudo tem um significado e, apesar disso, onde a religião e a crença imperam. Com efeito, este é o filme dos altares sacrificiais, sejam eles a figueira que albergará a morte de Bogey, ou o bosque que ditará a desilusão amorosa. Sobre todos estes universos paralelos impõe-se o rio. Sereno, sempre seguindo o seu curso. Tal como a vida. O rio é a porta de entrada do estranho que alterará a vida de várias adolescentes e será também o cemitério de Bogey. Nele se nasce e nele se morre. Daí que, tal como a vida, flua inexoravelmente para o seu destino. Não pára. Continua. As águas passam, mas fica o Mundo que o viu correr.
E essa é, talvez, a grande mensagem de The River. Mais do que concentrarmo-nos num passado distante, apenas conta o presente, dado que é ele que permite alterar o nosso rumo. O rio é sinónimo de vida. No caso de Renoir, é sinónimo de reencontro com a felicidade. Talvez por esse motivo, The River seja, também, um filme de cores garridas, num exemplo primoroso da utilização do Technicolor. Ou não fosse Jean Renoir descendente de Auguste Renoir.
Realista. Espiritual. Onírico. Métafísico. Eis o rio de Renoir e a vida que ele abarca. O Rio é, pois, a vida com toda a sua beleza e mistérios.