sexta-feira, outubro 20

Marie Antoinette

Kirsten Dunst em Marie Antoinette
Notas prévias: 1) não serão tecidas considerações sobre o rigor da reconstrução histórica. Já Benedetto Croce dizia que era necessário algum trabalho de imaginação para reconstruir realidades passadas e, provavelmente, foi o que Sofia Copolla fez; 2) apenas se aprecia Marie Antoinette enquanto obra cinematográfica.
Sofia Copolla regressa ao grande écran com Marie Antoinette. Trata-se de um projecto ambicioso, ou não estivéssemos perante um filme de época, que recria a corte francesa do Século XVIII.
Nesse particular, Sofia Copolla é bem sucedida, chegando, por vezes, a dar-nos ambiências que trazem à memória Barry Lyndon de Stanley Kubrick. Todavia, contrariamente ao tom barroco da obra de Kubrick, Marie Antoinette franqueia o acesso às corres garridas e berrantes, num perfeito contraste com os rostos hiper-maquilhados, conforme a moda da época. Neste ambiente de excessos e de constantes sussuros e conspirações, movimenta-se Maria Antonieta (uma soberba Kirten Duns), a jovem princesa austríaca que viria a casar com Luís XVI.
Tal como em Lost in Translation, Sofia Copolla explora a incapacidade de alguém se enquadrar numa dada realidade. Desta feita é Maria Antonieta que, através de uma bela sucessão de grandes planos do rosto e do recurso à câmara subjectiva, se vê num Mundo completamente diferente do seu: opulento, faustoso, exagerado. Um Mundo decadente, onde as festas e o jogo constituirão a única escapatória para fugir a realidade que se vive. Esta é a visão da rainha sofredora, que se vê afastada do seu lar e que apenas encontrará consolo nas amizades e nos filhos. Talvez por isso o belo plano de Maria Antonieta sozinha numa varanda, fitando o imenso deserto do hiper-povoado Palácio de Versalhes, se possa considerar uma síntese perfeita.
Poderíamos, até, dizer que este é o filme dos bolos, tantos são aqueles que as cortesãs comem. Indo mais longe, poderíamos dizer que este é um banquete pop. Mas trata-se de abordagens que obliteram o que é dado a ver e, pior, que esquecem a História. Afinal, segundo rezam as crónicas, a Corte de Versalhes era ainda mais exagerada. Voltando ao filme, esses exageros são, apenas, o modo de criar repulsa, de nos fazer sentir o mesmo que Maria Antonieta, uma estrangeira no seu Mundo, prisioneira de regras ocas e que carecem de sentido. Precisamente por carecer de sentido, é que veremos Maria Antonieta agindo da forma mais natural possível, tentando ser, não se refugiando em máscaras. Algo que, aliás, apenas conseguirá junto dos filhos.
Assim, bem vistas as coisas, mais do que uma leitura histórica ou política, esta é a visão pessoalíssima de Sofia Copolla. Marie Antoinette não é uma análise histórica. Pelo contrário, é o filme sobre o quebrar das regras e do protocolo. Daí que não haja qualquer espanto no recurso a nomes como New Order ou The Strokes para figurar na banda sonora. Copolla nunca quis fazer um filme histórico no sentido tradicional do termo. Quando muito, procurou desconstruí-lo ou, se tanto, conferir-lhe vestes de modernidade. Daí que beleza, encanto e sedução sejam três palavras que assentam que nem uma luva a esta obra.
Em França houve direito a apupos - o que só se entende como manifestação do já lendário chauvinismo francês - e, por outras paragens, fala-se em ópera pop. Trata-se de críticas puramente destrutivas e que recusam o esforço de análise. Marie Antoinette é uma obra de ruptura na continuidade, dado que é a afirmação de Copolla enquanto autora.

16 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ainda não vi o filme, mas gostei deste texto. Todas as críticas acerca do filme (ao nível do descrição histórica e da banda sonora) não fazem para mim nenhum sentido quando se trata de um filme de autor que não tem que se conformar com normas estéticas.
Estou ansioso por ver este filme (e a Kirsten...)

1:53 da manhã  
Blogger Francisco Mendes said...

Sem dúvida que é o filme dos bolos, do qual se poderá obter uma bela alegoria, pois este filme carece de uma boa confecção. As personagens desfilam ocas como marionetas inexpressivas pela passerelle e a única preguiça que encontro reside na Sofia em explorar amplas faculdades da Sétima Arte, pois os constantes/irritantes cortes reforçam a noção de portfolio de sapatos, vestes, bolos e cosmética.

Mas enfim... são gostos. Espero que por tal, não me apelides de preguiçoso... ;)

Irei rever na próxima semana o filme e então poderei formar uma opinião bem mais sólida, mas adorei imenso a banda sonora. A inserção de "The Cure", "The Strokes" e afins, são de um arrojo que não tenho problemas em aplaudir efusivamente.

Quanto ao clássico de Kubrick: intocável no seu Altar.

Bela análise Hugo. Podemos discordar, mas escreves como poucos e isso é o mais importante para mim.

Cumprimentos.

9:48 da manhã  
Blogger Ricardo Martins said...

Tou a ver que tás a acarinhar a Sofia Coppola como uma nova auteur.

Não podia estar mais em desacordo contigo, Hugo. O filme soa a pouco, como tantos desconfiavam; é até bastante light, esperava-se algo mais decadente, e as personagens são esquemáticas. Parece dirigido para pessoas que tenham entre 30-35 anos e/ou que gostem das canções que a menina Coppola tanto gosta. Aliás o trailer dizia tudo sobre o filme, nem valia a pena ter lá posto os pés. Os melhores momentos são os 15 minutos finais, que decididamente deviam ter começado mais cedo.

Uma seca.

10:31 da manhã  
Blogger gonn1000 said...

Também gostei, embora perceba as más críticas, convenhamos que o filme poderia ter mais densidade e personagens melhor desenhadas, mas acho que já os filmes anteriores da Coppola sofriam dessa limitação. Continuo a gostar da aura etérea e atmosférica que mais uma vez está presente, onde a banda-sonora faz todo o sentido e é novamente determinante, e de vez em quando até há uns planos de antologia como esse da varanda que referes.

1:13 da tarde  
Blogger wasted blues said...

Vejo que estamos de acordo em muitos pontos, Hugo!

1:29 da tarde  
Blogger H. said...

Não podia estar mais de acordo. Sofia Coppola assume-se cada vez mais como uma autora.
Sob a roupagem de um filme histórico está um retrato de algo que não tem tempo. É um filme com tanto de aparências enganadoras que se torna magnífico descobri-lo nas suas dimensões emocionais camufladas pela cor e pelo som.
Muito bom!

7:14 da tarde  
Blogger joseo said...

Ainda não vi, mas perfeitamente de acordo quanto ás questões históricas/politicas...continuo com fezada..

8:22 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

POis. Eu fui com a cabeça o mais limpa possível e o resultado está no texto. Light ou não, trata-se de temas já abordados nos filmes anteriores, o que indicia um traço autoral na obra. Talvez, por isso, seja conveniente esperar pelo próximo capítulo.

11:11 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A Sofia Coppola mantém o mesmo handicap que faz dela uma cineasta menor: não consegue conferir substância às personagens.
Augusto

11:41 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Augusto: o alheamento que Sofia confere às personagens talvez não seja assim tão inocente. Um exemplo (com as devidas distâncias): não se poderia dizer o mesmo das personagens de Antonioni? Seja o escritor de La notte, o engatatão de L'avventura, o corretor de bolsa de L'eclisse ou o fotógrafo de Blow up?

4:11 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Muito curiosa!

6:23 da tarde  
Blogger Ne-To said...

Ainda não vi o filme, mas cheira-me a um breve desfile da história da arte moderna ;)

cumps

8:54 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ousar comparar o Antonioni com a menina Coppola é não perceber o alcance da tragédia que as personagens do Antonioni carregam.
As outras são apenas vazias.
Augusto

8:45 da tarde  
Blogger Joana C. said...

Concordo com tudo o que dizes. é um filme belíssimo que me deixou com muita vontade de o rever!

11:10 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Augusto: eu percebo (e vejo) o alcance da tragédia em Antonioni. Convém não esquecer que eu disse que era um exemplo com as devidas distâncias. Mas convenhamos que, tal como em Antonioni, as personagens da menina Copolla deambulam e procuram escapatórias como forma de iludir a realidade. E convém não esquecer algo (para acenutar, de vez, as diferenças): Antonioni dizia numa entrevista que adoraria fazer um filme com um fundo branco onde as personagens se movimentassem, cabendo ao espectador a tarefa de "criar" (sonhar?/imaginar?) o ambiente que as envolvia. Ora, tal capacidade de abstracção está muito longe do Cinema de Sofia Copolla, tal como está a incapacidade de fazer a simbiose perfeita entre Homem e Meio para projectar o sentimento de uma dada personagem.

Joana: é belíssimo, mas, infelizmente, não é perfeito. Ainda há muito para aperfeiçoar no Cinema da menina Copolla. Mas ela vai no bom caminho. Vai mesmo.

11:46 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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