quinta-feira, outubro 12

A beleza do anacronismo aparente


Entre Jules et Jim e Les deux anglaises et le continent distam, apenas, 9 anos. Onde o primeiro foi uma obra marcante na afirmação da estética da nouvelle vague - onde, como sempre, a fotografia de Raoul Coutard faz maravilhas -, o segundo foi considerado, à época, como um filme absolutamente menor. Tendo em conta que ambas as obras mergulham no universo de Henri-Pierre Roché e, formalmente, se adoptou a leitura do texto (tal como em Jules et Jim), num belo exercício de cinema "literário", causa alguma estranheza o fracasso.
Ora, o passar dos tempos tem destas coisas e permite uma avaliação mais clara das coisas. Se em Jules et Jim teremos, porventura, o ocaso da audácia criativa de François Truffaut, Les deux anglaises et le continent marca a entrada numa nova fase da carreira do cineasta: a do Homem-Cinema, onde Truffaut quer transformar cada filme num espéctáculo grandioso.
Neste particular, Les deux anglaises et le continent é, talvez, a mais pictórica e gráfica das obras de Truffaut, fazendo com que cada plano, para além de recriar a ambiência de quadros impressionistas, é, também ele, uma súmula vertiginosa de sensações e de impressões. Mas esta é também uma obra gráfica. Do mesmo modo que a câmara vai descobrindo a forma dos corpos esculpidos por Rodin, será também a descoberta do corpo e do prazer. Ora, numa obra intimista e interiorizada, onde se destaca a sublime interpretação de Jean-Pierre Léaud, será essa descoberta o romper do colete de forças que dominam a mentalidade puritana da sociedade inglesa do princípio de século.
Este é o filme da distância, da aproximação e, consequentemente, do desejo e da sensualidade. Deste modo, é o contraponto perfeito de Jules et Jim. O turbilhão da vida e o elogio da amizade que conferiam uma certa ligeireza ao filme (apesar do tragédia que se antevia) é substituído aqui pela vitalidade e pela interiorização. Com efeito, por vezes tem-se a noção que as três personagens principais - Claude, Anne e Muriel - vivem com o ritmo de um livro. Ora, eis uma falsa pista: é esse tom de certo modo distanciado que permite que também o espectador possa colocar-se em condições de sopesar os vários contrastes que pululam no filme.
Trata-se, pois, de um filme de grande elaboração e, mais importante, um filme de total maturidade. Assim, não é por acaso que a última fala do filme seja a de um Claude, olhando para a sua imagem reflectida num vidro, exclamando: J'ai l'air vieux aujourd'hui. Uma obra-prima a descobrir.
Agora a explicação do fracasso comercial: por via de regra, os críticos concentraram-se no romantismo exacerbado da obra, bem como na fiel reconstrução de época, o que obnubilou aspectos essenciais, como a homenagem ao Cinema mudo e, também, a reflexão profunda sobre duas tradições diferentes: a insular e a continental. Mas, de certa forma, nada a que não se esteja habituado. É bem mais fácil criticar aspectos superficiais, em vez de procurar ir mais longe na análise da obra. Eis um tópico de reflexão...

6 Comments:

Blogger joseo said...

"É bem mais fácil criticar aspectos superficiais, em vez de procurar ir mais longe na análise da obra." - é bem verdade, é o que dá na maioria dos casos valer-se por uma mera sinopse, ou por simples valores figurativos...passou-se um bocadinho assim no ultimo filme do Shyamalan...olha-se para a superficie, ignora-se as camadas e a densidade, o âmago...

Quanto aos filmes em questão, são belos, absolutamente belos, Jules et Jim é um dos cumes do lírismo em cinema, colocando Truffaut no raro grupo de cineastas líricos - "ternura e a sensualidade" - do século anterior ao lado de um Rossellini, um Renoir, um Ophuls, Becker ou Garrel, segundo Carlos Melo Ferreira no seu livro dedicado a Truffaut...

Les deux anglaises et le continent é tudo o que tu disseste, mas acima de tudo cinema em estado fervilhante...

...e depois o facto do famoso triângulo amoroso que Truffaut inverte do 1º filme para 2º filme...

Grande Truffaut!

12:18 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Exacto. Para mim foi ainda mais fervilhante porque vinha directo de Une femme douce do Bresson. Dois grandes filmes!

8:12 da tarde  
Blogger H. said...

ñ consegui ir vê-lo à Cinemateca mas hoje reparei que há uma edição do filme em dvd em Portugal e estou a pensar adquirir. Como sabes gosto imenso do Jules et Jim e embora de Roché só tenha mesmo lido essa obra, tenho uma curiosidade imensa qto a esta outra adaptação.
(e sim, é sempre bom ler e aprender c/o que tu escreves :) )

1:01 da manhã  
Blogger Harry_Madox said...

é uma obra-prima, na minha opinião só comparável na obra de Truffaut a 'os 400 golpes', 'Atirem sobre o pianista', 'Jule e Jim' e a 'Noite Americana'

9:31 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Harry madox: ora nem mais. Mas há quem não pense assim: não estavam mais de 20-30 espectadores de mim na Cinemateca :(

10:04 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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