domingo, setembro 24

Dançando com o perigo

Robert Taylor e Cyd Charisse em Party Girl
De um ponto de vista meramente cronológico, Party Girl, obra datada de 1958, é o último dos grandes filmes de Nicholas Ray, sendo também a súmula dos temas da sua obra.
Como é usual em Ray, a personagem principal, Tommy Farrell (Robert Taylor) é um homem ferido. Desta feita, a ferida latente neste anti-herói é dupla. Com efeito, estamos perante alguém debilitado fisicamente, em virtude de um acidente sofrido na juventude que o obrigará a coxear constantemente, mas, também, perante alguém debilitado profissionalmente, já que quanto maior é a sua perícia enquanto advogado, menor será o seu amor próprio e a sua auto-estima, dado que todos os seus dotes profissionais são consagrados a uma causa que lhe dá asco.
Todavia, a partir do momento em que se vê na necessidade de agir, tal como o capitão Leigh de Bitter Victory, Farrell será um mestre no campo de batalha, orientando-se como ninguém. Todavia, contrariamente ao Leigh de Bitter Victory, Farrell age motivado pelo amor de Vicki (Cyd Charisse), a dançarina capaz de incendiar o seu coração e de lhe mostrar que era capaz de ser tão bom ou melhor do que qualquer outro homem.
Na verdade, Party Girl é, talvez, a mais bela das histórias de amor. Tommy e Vicky, ambos provenientes de passados sombrios e pouco recomendáveis, foram humilhados e o seu encontro marca o começo de uma nova vida. Eis aqui uma diferença relativamente a obras como Bitter Victory ou Johnny Guitar: os protagonistas encontram-se quando já não há esperança e é esse o ponto de partida para todo o enredo.
Party Girl é, com efeito, um sumário do Cinema de Ray, mas funciona como virar de página. Onde antes primavam cenários naturalistas, desta feita prima o sumptuoso e o opulento, sobressaindo toda mestria de Ray no uso da cor, seja apresentando Vicki num impressivo vestido vermelho, seja brindando-nos com magníficas sequências musicais no clube. Em qualquer caso, não haverá qualquer opulência nos vários vilões que vão surgindo. Estes são bem reais e agem sob a bandeira da maldade e da vingança. Também aqui, tal como em Johnny Guitar, acabamos por ter a subversão de um género. O que poderia ser um típico filme noir - veja-se a arquetípica sombra de um polícia interrogando Vicki - acaba por ser uma mescla de géneros às mãos do genial Nicholas Ray: filme Noir, filme de gangsters, história de amor em tom hollywoodiano - veja-se o périplo do casal pela Europa - passando pelo musical.
Tal como Vicky nos brinda com fulgurantes coreografias no filme, todo o enredo acaba por ser uma dança constante com a morte, seja porque o bando de Rico (Lee. J Cob) não dá tréguas ao casal apaixonado, seja porque a longa mão da Justiça acena com a reclusão de Tommy. Nesse turbilhão de acontecimentos, estará sempre a mão de Ray que, enquanto mostra a sua versatilidade enquanto cineasta nas belíssimas coreografias das danças de Vicki, faz uso da elipse para nos ir dando as informações necessárias acerca do passado das personagens, surgindo à cabeça a cena da ponte. A ponte que une duas margens e que acabará, também, por ligar Tommy e Vicki.
Party Girl, mau grado denotar algum desequílbrio em função da fusão de vários elementos, acaba por ser um filme cuja aura de erotismo, sensualidade, lirismo e emoção prendem o espectador, deixando-o num estado de pura contemplação. Mas, nada há aqui que nos surpreenda. Com efeito, tirando a excepção da pura perfeição formal de They live by night, toda a obra de Ray é marcada pelo desequílibrio e pela instabilidade, facto patente em todas as suas personagens. Em Ray esquece-se tudo isso. Porque a tela vibra de emoção e cada momento de imperfeição ou desequilíbrio acaba por por em relevo toda a beleza do conjunto. Porque uma história banal converte-se em algo inesquecível. Em suma, porque Nicholas Ray c'est le cinéma e Party Girl não é excepção.

8 Comments:

Blogger Ricardo Martins said...

Que filme extraordinário! Esse desiquilíbrio que falaste advém da anarquia de Nick Ray, por não fazer estórias hollywoodianas muito "claras", e pelo facto de Ray estar apaixonado pelos vilões.

Os filmes de Ray são sempre assim - híbridos. E é uma pena já ninguém fazer filmes assim...

11:41 da manhã  
Blogger wasted blues said...

Junto-me aqui ao coro de admiradores de Nick Ray que esteve presente ontem na Cinemateca! :)

9:52 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Não fizeste tu senão bem :-)

Ver um filme de Nick Ray vale sempre a pena. Sempre, sempre.

10:17 da tarde  
Blogger H. said...

Cada vez mais me convenço que Nicholas Ray não só é cinema como é vida, numa fusão perfeita.

Apesar de não ficar no meu top-3 de filmes dele, é sempre marvilhoso ver um Ray na Cinemateca (estou a ver que a blogosfera cinéfila esteve lá em peso!),e é sempre um gosto ler quem sabe escrever sobre ele ;)

12:00 da manhã  
Blogger mig_domingues said...

Não, a blogoesfera não esteve lá em peso, porque eu não pude ir - e com os meus quase oitenta kilos, acho que fui baixa de peso. Por isso, venho aqui completar publicamente o ritual de penitenciamento e auto-flagelação que já comecei em privado. O meu cavalo marinho agradece a pausa.

Cumprimentos,
Miguel Domingues

1:22 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Miguel: Em peso é forma de expressão, meu caro. Não te auto-flageles que não vale a pena. Acredita nas palavras do especialista em auto-punição. :-)

Helena: Também não está no meu top 3 de preferências do Ray (apesar de este top ser muito difícil de escolher...digamos que não aparece nos candidatos de primeira linha). Saber falar dele é como quem diz. Haverá quem escreva melhor e saiba muito mais sobre o Nick Ray, certamente.

O Ray é a definição de cinema doFuller: "in one word, emotion". Isso diz tudo.

3:29 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

necessario verificar:)

9:20 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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