terça-feira, maio 2

Viver cinematograficamente ou da solidão do cinéfilo

Jacques Perrin em Nuovo Cinema Paradiso

Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs
André Bazin

Qualquer cinéfilo está perfeitamente habituado à rotina de se encaminhar sozinho para uma sala de cinema. Acto de militância ou não, a tentativa de encontrar refúgio numa sala escura onde são projectados bonecos de luz (na doce expressão de Romeu Correia) mais não é do que uma fuga da realidade.
Procuramos encontrar um porto de abrigo, algo a que nos possamos apegar, mas, lá no fundo, não deixamos de ser, também, Cinema. Godard mostrou-o brilhantemente ao apontar a sua câmara de forma directa para o espectador em Le mépris. Mas não era preciso tanto.
Acontece que o refúgio que procuramos, o mais das vezes, redunda num avolumar das dúvidas. Vimos? Não vimos? Será que a realidade que vemos é, efectivamente, aquela que nos é mostrada ou haverá algo para além do que vemos e sentimos, como demonstrou Antonioni no perturbante Blow up? Mas, mau grado o adensar das dúvidas, não deixamos de ser impelidos para a sala escura. É o fascínio, a mística, enfim, a curiosidade da criança que temos em nós. E será sempre com um brilhozinho nos olhos que veremos a sucessão de imagens projectadas, hologramas animados, espectros que nos assombram, fantasmas que nos perseguem.
É um Mundo que satisfaz os nossos desejos e, ao mesmo tempo, espicaça a nossa curiosidade. Fugimos da realidade quotidiana e passamos a fazer parte de outra. Somos cinema, pensamos cinema e - pasme-se! - chegamos ao ponto de viver cinematograficamente. Sem dar conta disso somos envoltos numa teia intrincada de personagens que nos assombram e consolam. Somos cinema e, num acto egoísta, acabamos muitas vezes por recusar companhia para ver Cinema. É certo que muitas vezes esta é interessante, transformando o pior dos filmes em algo bom, mas o vício cinéfilo impele-nos para a solidão. Afinal, não é só a escrita, como dizia José Cardoso Pires, um acto solitário. Ver Cinema também o é.
Uma vez acabada a projecção e acesas as luzes, abandonamos o nosso santuário, não sem que desçamos a avenida e voltemos a casa com o espírito enriquecido quer pelo que vimos, quer pelo que reflectimos. Uma doce e quente alegria enche-nos a alma e, concomitantemente, o grande vazio assola-nos. Uma coisa é certa: o cinema não acabou com o fim da projecção. Continua em nós, atormentando-nos e consolando-nos.
Razão tinha Truffaut quando dizia que os cinéfilos eram pessoas doentes.

16 Comments:

Blogger Ricardo Martins said...

Mais um grande texto, Alves, face à decadência dos grandes sites de cinema em Portugal; este blog é uma das poucas razões que me fazem ainda ligar a internet.

Quer se queira quer não, a cinefilia, ou a ida ao cinema como um ritual, é mormente um acto solitário, como tal, não anda longe do prazer voyeurista/masturbatório.

Este é um daqueles temas chave que nenhum crítico de cinema aborda, mas que devia ser discutido muitas vezes.

10:12 da manhã  
Blogger Daniel Pereira said...

Revejo-me em todo o texto. E isso, àz vezes, é angustiante. Lá está, o Truffaut é que a sabia toda...

2:23 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Então não sabia...sim, o cinéfilo é uma pessoa doente. Foge de uma realidade procurando encontrar abrigo noutra, sem dar conta que cria um vício enorme...

...cria um ritual que não conseguimos abandonar, que nos consome.

7:39 da tarde  
Blogger wasted blues said...

Belo texto sobre o ritual, a solidão, o pensamento, a reflexão sobre e pelo cinema... essa paixão que nos torna doentes, quiçá também um pouco incompreendidos, como todos os apaixonados.

9:20 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

É um prazer passear por aqui! É um bon-bon no final da noite, já despertando a manhã.
Esse cinema-fascínio é o vazio que se ilumina dizendo o que nos falta ou escondendo o que nos sobra (!).
Fred Astaire continua dançando lindamente, Ava Gardner ainda está na África cuidando do Gregory Peck,
Peter Sellers sempre à captura de temíveis bandidos, Mastroiani, Burt Lancaster, Al Pacino e agora (pasmem!) Ralph Fiennes, todos continuam representando só pra mim. E eu... ora crianças!... eu ainda tenho 18 anos.
Sem estéticas ou éticas, sem semióticas ou óticas, peneirando o que me resta, pra mim, melhor que cinema só mais cinema.
Até breve

8:19 da manhã  
Blogger Tiago Barra said...

Um texto com mensagem introspectiva de grande qualidade! Sabes pensar, e essa é uma faceta que falta a muitos auto-titulados cinéfilos (conforme resulta de uma leitura atenta dos seus blogs).

"Eles andam aí" ;)

Aquele Abraço,

T.B.

12:11 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Muito obrigado a todos por tão simpáticas palavras.

À ilustre anónima direi apenas, citando uma canção do Sérgio Godinho, "a idade não é o bilhete de identidade"...

Saudações cinéfilas!

6:19 da tarde  
Blogger H. said...

É incrível, mas juro que ontem qdo fui à Cinemateca após as aulas pensei exactamente nessa solidão dos cinéfilos. Claro que não tenho as tuas referências mas interroguei-me se seria apenas eu que ia 90% das vezes sozinha maravilhar-me com o que se passava no ecrã, como se isso fosse mais real que a minha própria realidade vivida.

"o vício cinéfilo impele-nos para a solidão"... que mais acrescentar?
haverá solução p/ esta doença? será possível que não seja tão solitário sem diminuir? pergunto-me mts vezes isso e não deixo de me entristecer por vezes ao imaginar os milhoões de filmes que quero ver... e as horas dessa solidão, se se irão agravar, ou se pelo contrário encontrarei dentro dos 'militantes' um pendor social da cinefilia que até agr ñ encontrei...

O teu texto ñ podia ser mais pertinente. Vou ficar a ficar nele...
E, isto pode parecer estranho, mas... Obrigada.

7:09 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Nada a agradecer :)

7:13 da tarde  
Anonymous André Sousa said...

Pois eu devo dizer que já tinha lido este texto num outro blog. Não gosto de cópias.

12:55 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

André Sousa: Já se dizia na velha Roma: quod erat demonstrandum...

3:45 da tarde  
Blogger mig_domingues said...

O ponto fulcral é dado pela H. A meu ver a solidão do cinéfilo só é derrotada pela ideia de comunidade. Pensem na parábola das flechas no "Ran" do Kurosawa.

Allez Alves!

3:03 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Miguel: nem mais!

Aquele Abraço!

3:14 da tarde  
Blogger Paulo Anjo said...

Apesar de ser um post deveras interessante, salvo o devido respeito, permitam-me discordar. Truffaut não tem razão. NEM todos os cinéfilos são doentes. Uma ida ao cinema, ainda que com manifesta frequência, trata-se apenas de um "alimento" para a alma, numa lógica puramente recreativa, lúdica e até educativa. Tentamos apenas aprender algo mais sobre a velha arte e sobre a vida. Não se trata igualmente de um acto de individualismo ou egoismo, uma vez que se pode perfeitamente ir acompanhado.

Humildes saudações,

Paulo

6:17 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Caro Paulo Anjo,

i) Conforme muito bem deve saber, uma das máximas de Truffaut era "la vie c'était l'écran" (que, por acaso, subjaz ao texto). É impresão minha ou cometeu o pecado capital de ter separado uma frase do restante pensamento do autor?

ii) É de facto verdade que nada impede a que se vá acompanhado ao cinema. Acontece que, por via de regra, o cinéfilo empenhado opta pela solidão.

iii) Não será à toa que em três filmes tão díspares como sejam "la nuit américaine" de Truffaut, "Otto e mezzo" de Fellini e "Le mépris" de Godard se fale da cinefilia como acto de solidão (nos filmes fe Truffaut e Fellini -este só em certo ponto- é um acto solitário mas alegre...

iv) E, por falar em Le mépris, relembro-lhe o intróito (a citação de Bazin). O Cinema, seja ele a Verdade 24 vezes por segundo, um ideal de vida (viver cinematograficamente) ou uma pura ilusão, é sempre a porta para outros Mundos...

v) Para a realidade que substitui o nosso olhar. A mesma realidade a que procuramos fugir encontrando um porto seguro nos espectros que vemos projectados e se vão apoderando de nós...(e, nisto, poderíamos, a talho de foice, falar de Persona. Quer acompanhar-me nessa dissertação?)

vi) Como se não chegasse, a cinefilia por vezes redunda em obsessões. Como bem me lembrava a H. aqui há dias (grande bem-haja!) até damos por nós a querer ir para a 1ª fila para sermos os primeiros a receber as imagens.

vii) Mas o comentário traz-me outra dúvida: será que aquele que apenas frequenta complexos multiplex é cinéfilo?

viii) A resposta é dada em "otto e mezzo" (volto sempre à velha casa, essa bela confusão)

ix) "Sem desenvolvimento de premissas filosóficas esta [o filme que Guido queria fazer] será demonstração mais completa de que o Cinema tem 70 anos de atraso em comparação com as outras artes" (perdoe-me se não citei de modo totalmente exacto)

X) E sim, acaba por ser um acto de egoísmo. Todos temos o nosso filme, o nosso cinema,...

xi) E como diziam (E MUITO BEM) a H. e o Mig. Domingues é uma solidão que gera um espírito de comunidade (até me veio à cabeça o belo livro "Comunidade" de Luiz Pacheco. Porque será?)

xi)E, colocando dúvidas, acaba por sair um texto...à guisa de resposta.

Cordiais saudações do bloggeiro de serviço,
Hugo Alves, um criado ao seu dispor

PS - a talho de foice o Cinema não é uma velha arte quando comparado com outras(será que é mais velho do que a pintura, a escultura e a arquitectura?)

8:24 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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