sexta-feira, março 3

Antoine Doinel, o Bom Selvagem

Jean-Pierre Léaud em Les 400 coups
Antoine Doinel, alter-ego de François Truffaut, personagem fundamental da história do Cinema e personagem iconográfica interpretada pelo sensacional Jean-Pierre Léaud.*
François Truffaut dá-nos a possibilidade de vermos a evolução e o crescimento de uma personagem. Desde o adolescente problemático de Les 400 coups até ao trintão recém-divorciado de L'amour en fuite, durante 20 anos vemos uma personagem que hipnotiza, enternece e, acima de tudo, marca, em qualquer uma das suas aparições, a saber: Les Quatre Cents Coups (1959) , Antoine et Colette (segmento de L'amour à vingt ans de1962), Baisers Volés (1968), Domicile Conjugal (1970), e L'Amour en Fuite (1979).
Um personagem que, de alter-ego total de Truffaut, foi, paulatinamente, crescendo, ao ponto de se tornar independente e de conseguir gravar na nossa memória alguns tiques e/ou trejeitos inesquecíveis: desde as corridas por Paris, passando pelo seu jeito trapalhão e pelos seus esgares expressivos, Doinel não deixa ninguém indiferente.
De facto, em Les 400 coups, vemos um Antoine verdadeiramente inadaptado, tal como Truffaut, incapaz de ter sucesso na escola e produto de um lar vazio, que encontrará o seu porto de abrigo nas deambulações por Paris e nas idas ao cinema. Mau grado os seus inúmeros esforços (o rocambolesco altar dedicado a Balzac) para corresponder aos anseios dos outros, acabará por tornar-se num pequeno marginal e será abandonado pelos pais num reformatório, donde fugirá, numa cena inesquecível, em que, após uma corrida pelo campo, Doinel vai ver o Mar, o Mar que nunca vira e que o deixa assombrado, com uma expressão grave e misteriosa. A mesma expressão com que fita os espectadores, deixando em aberto o seu futuro.
E então encontramos um jovem Doinel, apaixonado, idealista, hipnotizado pela música e pelos livros que tudo fará para conquistar Collette. Continuamos a conviver com um solitário, mas que procura quebrar essa solidão através da conquista do outro, através da sedução. É o Doinel galante e romântico que, após este insucesso, ingressará na tropa. E aí topamos com Baisers volés, grito de independência em que, ao melhor estilo de Les 400 coups, Doinel fará trinta por uma linha e será o homem dos mil ofícios: porteiro, detective privado, reparador de TV's...
Em qualquer uma dessas situações teremos o eterno idealista, à procura do Mundo Perfeito e incapaz de lidar seriamente com os seus erros ou com erros dos outros. Erros brindados pelos seus gestos toscos e nervosos, os mesmos gestos que fazem com que nos sintamos atraídos por esta curiosa personagem e que levarão Christine a apaixonar-se e casar com ele. Um idealismo levado ao auge com o episódio do nome do seu filho: chamar-se-á Alphonse, apenas porque é um nome digno de um princípe das letras, uma das paixões de Antoine. Paixões que, o mais das vezes, redundam em obsessões, tal é a ânsia de atingir o objectivo desejado. Obsessões cristalizadas no seu modo de pensar e sempre alteradas, tal é a sua velocidade. Antoine, um pensador nato e uma mente prolífica...um ser pensante em revolução constante.
Doinel, L'homme qui aimait les femmes (permita-se-me o uso do título de um outro filme de Truffaut) acabará por conhecer uma japonesa, Kyoko, colocando em risco o seu casamento, que virá a sucumbir, não sem que Christine deixe de gostar de Doinel, do seu jeito tosco, inocente, cando. E ele, Doinel, permanecerá fiel à sua Natureza, sendo incapaz de abdicar da sua grande paixão: as mulheres. E assim se concluirá o ciclo, ao som de L'amour en fuite (de Alain Souchon), beijando Sabine enquanto passam alguns dos planos de Les 400 coups, das escpadelas de Doinel para o Parque de Diversões, rindo de felicidade, numa ponte entre presente e passado em simbiose perfeita, com um piscar de olho para um futuro que nos cabe imaginar.
Antoine Doinel, um personagem puro, inocente e transparente. O Bom Selvagem rousseauniano e o último dos românticos, sempre agindo por instinto e sem qualquer maldade, pautando todas as suas relações pela lealdade e por uma humanidade a toda a prova.
Um ideal de bondade que perdura e perdurará na memória de todo aquele que veja qualquer um dos filmes do ciclo Doinel, do mesmo modo que a sua constante dificuldade de compromisso quer com a vida quer com o outro, leva à identificação, nem que mais não seja, parcial, com esta lição de vida. Vida, é precisamente esse o cerne de Doinel e do seu cinema, bem como do cinema do seu autor, o sublime François Truffaut que, com doses subtis e precisas de sentimento, é capaz de nos deixar assoberbados e em estado de transe, mesmo após o fim do filme, com uma alegria espiritual que subsiste nos dias subsequentes e nas alturas em que, por qualquer motivo, se recorda um qualquer plano das aventuras de Antoine Doinel.
Concluo com uma pergunta: Antoine, que reste-t-ils de nos amours?
*A ligação entre ambos é tão forte, que Truffaut dedica L'enfant sauvage, a Jean-Pierre Léaud, sobre quem afirmou "ele é um jovem do século XIX. Eu, da minha parte, sou um nostálgico. Não vibro com o que é moderno e é no passado que encontro a minha inspiração"

9 Comments:

Blogger Harry_Madox said...

Engraçado escrevermos no mesmo dia sobre Doinel, ou seja, sobre Truffaut. É impossivel gostar de cinema e não gostar de Truffaut.

1:20 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Totalmente impossível, diria eu!

1:47 da tarde  
Blogger Ricardo Martins said...

Concordo convosco. Truffaut é dos grandes, apesar de não estar no meu topo. Talvez seja demasiadamente humano e leve na sua abordagem ao cinema, postura que Renoir dominava (bem) melhor.

Do Truffaut venero aqueles mais "negros": Jules e Jim, Disparem sobre o Pianista, Fahrenheit, La Chambre Verte e os 400 Golpes.

11:16 da tarde  
Blogger Paulo said...

Truffaut era um génio e realizou alguns dos melhores filmes de sempre. Não só toda a saga do Antoine Doinel, mas também obras como o mítico Jules et Jim ou o semi-obscuro mas hilariante e genial Une Belle Fille Comme Moi.

12:08 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Concordo plenamente.
Um génio e um dos poucos realizadores que, para além de lírico e poético, consegue transportar para os seus filmes uma carga de humanidade (e humanismo!) sem par. E é aí que reside a força do seu cinema: um mise-en-scéne directo e sem grandes floreados, onde prevalece a dimensão humana das personagens, com os seus pequenos grandes dramas, sempre com um toque subtil de comédia na dose certa (neste ponto Truffaut chega a ser cirúrgico. Aliás, ad provocationem, eu diria que Truffaut é o cineasta da medida exacta e do absoluto rigor no modo de contar uma estória).

O que eu admiro particularmente em Truffaut é a sua versatilidade. Desde o filme de época (Les deux anglaises, L'enfant sauvage), passando pela ficção científica (Farenheit 451) ou pelo policial (La mariée était en Noir), Truffaut está quase sempre em altíssimo nível. ISto sem conseguir deixar de inovar, como é o caso do triangulo de "Jules et Jim", obra-maior do cinema e uma das poucas relações triangulares devidamente exploradas e contadas.
Isto já para não falar da sua homenagem ao Cinema e à arte de fazer filmes, no belíssimo "La nuit Américaine", que será sempre inesquecível, tal como este ciclo Doinel.

12:29 da manhã  
Anonymous Miguel said...

É sem dúvida uma série de filmes brilhantes.

Recordo também outros filmes fantásticos nos quais Léaud participou, sem ser como Doinel obviamente, mas perfeitamente reconhecível.

Masculin-Féminin, JL Godard

La Maman et la Putain, Jean Eustache
(postado no You Tube há pouco tempo
é aproveitar porque era quase impossível de encontrar)

http://www.youtube.com/watch?v=pndwnqoHojE&feature=channel&list=UL

http://www.youtube.com/watch?v=DaHL3apPbSg

I hired a contract killer, Akira Kaurismaki

11:27 da manhã  
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