sábado, fevereiro 4

Giù la testa

James Coburn em Giù la testa

Cumpre salientar que opto por utilizar o título original deste grande (mas menosprezado) filme de Sergio Leone, que conheceu três outros títulos: Duck You Sucker! (tradução para inglês de Leone), A Fistful of Dynamite (utilizado pelos produtores americanos, de modo a retirarem proveitos com a similitude da trilogia "dólares"), e Once upon a time...the Revolution (título utilizado em França para acentuar a continuidade com Once upon a time in the west).
Pier Paolo Pasolini referiu-se a este filme afirmando que Leone, progressivamente, era um realizador com cada vez mais interesse, dado que dava cada vez mais relevo aos dramas existenciais do Homem. Ora, apesar de tão honroso elogio, o filme foi um flop comercial nos Estados Unidos da América, tendo sido alvo de um forte corte: de 160 minutos, o filme ficou reduzido a quase duas horas.
Creio que a principal razão que explica o fiasco comercial prender-se-á, certamente, com o tom político extremamente acentuado desta obra. Lembre-se que em 1971 estamos em plena Guerra do Vietname e a Guerra Fria continua a pairar sobre a mente dos americanos. Assim, o facto de se abrir um filme com uma citação de Mao Tse-Tung sobre a luta de classes não terá ajudado muito ao sucesso do filme (citação que, cirurgicamente, foi cortada aquando da exibiçao comercial).
De facto, o tom político é omnipresente. Dois exemplos:
i) Os guardas mexicanos são a projecção das SS (ou, caso prefiram, dos Camisas Negras de Mussolini), bastando relembrar as inúmeras execuções com que o espectador é presenteado, maxime numa sequência em que vemos inúmeros mexicanos a ser fuzilados numa vala comum...
ii) Os planos iniciais em que Juan Miranda (Rod Steiger) entra numa carruagem repleta de vários elementos da Alta Burguesia. Juan é alvo de vários epítetos (animal e ignorante são os mais comuns) lançados pelos seus "companheiros", enquanto estes comem. Aqui Leone utiliza um dos seus recursos clássicos: o close up. Com planos exagerados das personagens a comer, sentimos o crescimento da raiva de Juan, que é acentuada pela repetição em eco dos insultos e dos close ups das personagens (dizem que é uma cena similar a O couraçado Potemkine de Eisenstein) e que só acaba quando a carruagem é assaltada.
Pese embora este tom político, o filme tem uma mensagem bem definida: a Revoulução é violenta e traz sequelas. É essa a grande lição que Sean, rectius John (James Coburn) nos dá. Trata-se de um irlandês membro do IRA que se refugia no México. Precisamente a propósito de John, saliento ainda a o reencontro com um dos recursos favoritos de Leone: a analepse. Graças a este recurso técnico, partilhamos dos sentimentos de John, em que vemos a recordação dos dias felizes da sua vida, bem como dos momentos marcantes da Revolução que ele conhecceu e e participou activamente.
Neste particular, é manifesto o contraste entre a verdejante Irlanda (ninho de felicidade) e o árido deserto mexicano (o degredo de John). De igual modo, não deixa de ser curioso o facto de a analepse final mostrar um trio amoroso, como que se se tratasse de um piscar de olhos ao genial "Jules et Jim" de François Truffaut.
Finalmente, temos uma transformação final tocante: quando Juan dá conta que John morreu, vemos uma profunda alteração do seu rosto, como que significando que passou a assumir as responsabilidades da Revolução. Uma vez mais, temos Leone em plena evolução: já não temos personagens que são. Pelo contrário, temos personagens que evoluem.
Filme a ver (ou rever, consoante os casos), de preferência sem ideias pré-concebidas. Só assim se poderá fazer uma correcta avaliação desta obra.
PS - A tradução portuguesa "Aguenta-te canalha" deixa muito a desejar, tal como a alemã "Todesmelodie" - Sinfonia (literalmente, seria "melodia") da morte.

2 Comments:

Anonymous yerblues@bol.com.br said...

Uma obra-prima injustamente menosprezada... tudo neste filme (pelo menos na versão que conheço, que é essa lançada recentemente em DVD) é magnífico, desde as interpretações de Steiger e Coburn (eu adoro esse cara!), passando pela cinematografia, pelo roteiro em "crescendo", arrematando com a música de Morricone, que, em minha opinião, é top five na obra do Maestro... E Leone... o que dizer de Leone? Uma aula de cinema e muito interessante também sob o ponto de vista filosófico-político (sem ser intelectualóide), inclusive para nós brasileiros que vivemos um momento político de questionamento sobre o que é verdadeiramente a "esquerda"...

1:44 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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