terça-feira, fevereiro 7

Amarcord

Magali Nöel em Amarcord

"Io mi ricordo", "lembro-me", eis o significado do título deste filme de Federico Fellini. Cumpre lembrar Luiz Pacheco, que dizia ser dotado de uma imaginação podre, pois só escrevia sobre as suas vivências. Mutatis mutandis, poder-se-ia dizer o mesmo a propósito de parte do cinema de Fellini. Amarcord, a par de I vitelloni, são, neste particular, os exemplos paradigmáticos.
Porquê podre? Porque este filme mais não é do que a recordação dos tempos da juventude do própio Fellini em Rimini, mas há muito mais para além disso. Com efeito, vemos um retrato duro sobre uma certa forma de educar que privilegia o recalcamento dos estímulos sexuais, bem como uma educação assente no castigo e na mera memorização. Paralelamente, temos ainda a omnipresença de um regime político que oprime a população e que promove o culto da imagem. El duce aparece no filme como aquilo que foi na realidade: uma figura bruta e cómica (cristalizada comicamente num cartaz grotesco). Aquando da chegada dos fascistas a Rimini temos a perfeita definição dos mesmos: brutos e toscos (o trote pelas ruas chega a ser hilariante...)
Perante um clima destes obviamente, qualquer espírito que prime pela liberdade, rectius, pela irreverência, não deixará de procurar rebelar-se e é esse uma das principais ocupações de Titta e dos seus amigos. De certa foram, Titta será uma projecção do próprio Fellini, que sempre primou pela irreverência e pela inovação na sua obra (não é à toa que a expressão "felliniano" foi cunhada).
Pese embora esta reminiscência, Fellini, usufruindo de um magnífico guião de Tonino Guerra (o grande colaborador de Michelangelo Antonioni), acaba por por a nu o principal fito da existência humana: a reprodução. É assim que vejo o grito desesperado do louco tio Teo que, no cimo de uma árvores, lança repetidas vezes o famoso: voglio una donna!, que ressoa por toda a planície. Grito de desespero, fruto do recalcamento promovida pela educação recebida e, simultaneamente, o relembrar do objectivo do Homem, o cadáver adiado que procria como mui avisadamente dizia Pessoa. Uma loucura com uma angustiante lucidez, apesar de tudo.
Amarcord surge ante os olhos do espectador como uma dança de episódios que têm como pano de fundo (e leit motiv) a grande e problemática família de Titta. Uma dança que por vezes roça a insanidade, tal é o número de narradores que, indo ao encontro da câmara e olhando os espectadores nos olhos, aproveitam para nos por a par das novas sobre Rimini, desde a sua fundação até ao acontecimento mais recente. Uma dança feita ao som da dolente banda sonora de Nino Rotta, perfeitamente capaz de nos embalar e de nos fazer entrar na vida de Rimini, nem que mais não seja durante a projecção do filme...
E por entre essa bruma criada pela imensidão de narradores surge uma amálgama de personagens que têm um ponto comum e central: o instinto e o desejo. De facto, são estes dois elementosa grande tónica de Amarcord. Seja pelo grande poder de atracção que uma mulher vestida de vermelho - la Gradisca - provoca em toda a povoação de Rimini, sejo pelas hormonas saltitantes do protagonista Titta e do seu grupo de amigos. Um grupo com sonhos e anseios, que são manifestados, por exemplo, aquando da realização de uma corrida de carros.
Anseios que, de certa forma, são partilhados por uma população que se interroga pelo que se passa nas paredes do Grand Hotel, dado que não podem custear a sua entrada pelo limiar da porta. Assim, ante tal impossibilidade, resta apenas o sonho e a divagação, que são exponenciados pela proximidade ao mar, projecção de aventuras e de sonhos e por um ambiene, o mais das vezes, envolto pela neblina...
Sexo, Sonho, conquista da liberdade e idade adulta, eis os quatro vértices de Amarcord, vértices que podem ser corporizados em Gradisca que, no fim de tudo, acaba por desistir da liberdade e decide casar-se com um polícia. Mito inicial e desistente final, Gradisca será o principal fio condutor de toda uma narrativa, metáfora maior da vida segundo Mestre Fellini: carpe diem.
E assim flui de forma agridoce Amarcord entre as memórias de Fellini (e, também, Tonino Guerra) e os sonhos e anseios das personagens, cabendo ao espectador discernir qual das duas vertentes prevalece no filme: recordação ou sonho?

8 Comments:

Blogger Ricardo Martins said...

Mais um grande texto. Não tenho nada a acrescentar.

10:10 da manhã  
Blogger Tiago Barra said...

Caro Hugo Alves

Fellini não foi original na abordagem da comédia vulgar relacionada com o "urinar", "masturbar" ou "idolatrar mamas", pois limitou-se a revisitar as formas peculiares do cinema italiano (género "teen movie"), de que «Os Inúteis»(1953) foi pioneiro.

Não é rigoroso analisar a questao politica do filme ao limitá-la a uma "omnipresença de um regime politico que oprime uma população", de modo a que, "qualquer espirito que prime pela liberdade não deixará de procurar rebelar-se", isto porque, o realizador foi mais longe através deste filme autobiográfico insere um ponto-de-vista LIMITADO e INOCENTE das crianças num contexto social mais vasto, revelando a VIOLÊNCIA e EXCLUSÃO SOCIAL e as TONTARIAS DA JUVENTUDE.
No fundo toda uma população ENGANADA(basta atentar no espectáculo social mordaz com a cabeça de Mussolini a ser passeada em parada).
Por outro lado o bloguer de serviço não esteve particularmente inspirado na análise do grito do "tio Teo", depois de identificar(e bem) a relação com "o fito da existência humana - a reprodução" conclui (de forma infeliz) como sendo "uma loucura com angustiante lucidez"
Ora, cumpre referir que não se vislumbra qualquer ponta de consciência no comportamento do personagem TEO(lança pedras para quem o tenta salvar).
Além disso, um texto longe da realidade humana, senão vejamos :
identifica o comportamento de TEO como instintivo mas será que existe nestes comportamentos algum tipo de lucidez?

Sem querer menosprezar este "grande post" (bem conseguido) como já aqui foi testemunhado por "Ricardo Martins", não poderia, no entanto, deixar de manifestar estas notas de apreensão...

Saudações ao "Mui Ilustre" colega (e amigo)

2:08 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Mui ilustre, Tiago Barra:

(i) Do texto não decorre que tenha referido a total originalidade de Fellini (a referência a Luiz Pacheco, neste particular, diz tudo).

(ii) O tio Teo: loucura de lucidez angustiante por uam razão simples: qualquer louco tem um vislumbre de lucidez. In casu será a necessidade de procriação e o consequente "voglio una donna".

(iii) Comparar o teen movie a Amarcord ou I Vitelloni parece-me totalmente descabido. Esse género de "filme" de que certas coisas como American Pie serão o expoente máximo mais recente NÃO TÊM NADA A VER com o universo felliniano.

iv) A população de Amarcord não está enganada. Apenas sujeita a um regime. Como deve ter reparado, eu referi-me aos fasci (perdoe-me o italianimo) como brutos (física e intelectualmente) e toscos.

v) Caso tenha lido as entrevistas que Tonino Guerra deu a propósito da sua recente estadia em Portugal (para o lancamento do livro "O Mel"), certamente terá lido que Guerra e Fellini se inspiram, o mais das vezes, em histórias publicadas em jornais para escreverem o guião. Logo, o filme não terá esse carácter marcadamente autobiográfico.

vi) Pelo contrário, será apenas uma leve memória agridoce dos tempos de Rimini (daí a minha referência a certos elementos como a bruma. Provavelmente não me expliquei cabalmente)

Grato pela visita,
HA

2:14 da tarde  
Blogger Tiago Barra said...

Caro Hugo Alves


Como jurista que é, não é demais lembrar a necessidade do rigor e da coerência que utiliza nas palavras que escreve.


Assim, não se compreende o alcance do ponto i) quando se defende de criticas onde o único visado é Fellini.

Certamente não quis vender gato por lebre mas não disfarçou um certo egocentrismo desmesurado.

Não se entende porque insiste em descartar Amarcord do "género teen movie"(ou o texto que critica lhe permite tamanha ousadia ?).

Mais uma vez, pauta-se por ideias e sentidos não plasmados no texto.

Sem distrate de tautologias, voltou a pecar pela falta de rigor na menção a «American Pie» quando o associa ao "Teen Movie" pois o filme sugerido foi «Os Inúteis»(1953).


Não é razão para lhe solicitar que "compre uns óculos"; bem sei que é utilizador,ainda para mais, no rigor da sua profissão, a de jurista.

Grato pela atenção,
TB

2:47 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Caro Tiago Barra,

Não me pronunciando sobre algumas frases que pecam por uma total falta de urbanidade, eis o que se me oferece dizer:

I vitteloni nunca poderá ser associado ao género teen movie. Se ainda não percebeu porquê, eis uma breve explicação:

Ergo, O género teen movie esteve em voga durante uma certa fase dos anos 80 e foi reatado com American Pie e afins. Pauta-se pelas temáticas que realçou em comment anterior e baseia-se em clichés e personagens estereotipadas.

Secundo, Amarcord vai muito para além disso (será que passa por lá?), dado que gira sobre algumas das temáticas existenciais básicas (os quatro vérices por mim referidos no texto principal, por exemplo).

Tertio, conforme deve saber (espero que, enteretanto já tenha tido oportunidade de ter visto, finalmente, I Vitelloni) I Vitelloni é um retrato agridoce sobre esperanças e sonhos frustrados. Esse sim é o filme mais autobiográfico de Fellini, pois, de certa forma, explica a sua saída de Rimini. A própria voz de Fellini na cena final da partida do combóio é a demonstração disso mesmo.

Finalmente, acresce também que os Vitelloni (perdoe o uso do original italiano, mas é termo de difícil tradução) são bem mais velhos que estes meninos de Amarcord e têm uma visão do Mundo diferente. Acresce também que os Vitelloni são um grupo de boémios entre o limbo da alegria e da depressão existencial (veja-se a necessidade de terem de ir para a praia. Certamente é um escape para a realidade que os rodeia).

Concluo reiterando o que já antes dissera: o teen movie não tem nada a ver com o que aqui se tratou. Nem aqui nem em I Vitelloni. Como muito bem saberá, foi com I Vitelloni que Fellini começou a criar, em definitivo, o seu género peculiar, que prima, entre outras coisas, pela existência de personagens surreais qb. Daí que não se possa relacionar tal obra com um género assente em clichés e em gags que são completamente déjà vu.

Tenho dito,

Grato pela visita,

Cumprimentos,

PS - solicita-se também que prime pelo bom português. Ainda hoje não percebo o significado de "Sem distrate de tatutologias". Como muito bem deve saber, "distrate" (acordo revogatório) é um termo jurídico muito preciso e não comporta aplicação ao caso vertente. Destarte, não se me afigura que esta seja a sede adequada para lhe ensinar a origem, o objectivo e as fontes desta figura jurídica.

PS 2 - a referência a American Pie não foi descabida. É o moderno teen movie. O ilustre comentador é que teve, digamos, o displante em rotular Fellini com uma etiqueta menor. Quando se critica/comenta, há que o fazer de forma racionalmente fundamentada, sob pena de os alicerces da crítica que move desmoronarem, como se de um castelo de cartas se tratasse.Vide parágrafos finais prévios aos PS.

11:06 da manhã  
Blogger Tiago Barra said...

A importação de termos jurídicos para a linguagem coloquial é um fenómeno cada vez mais em voga nos dias que correm.

Não é raro identificar algumas expressões como sejam : "mutatis mutantis", "Sem embargo de", "numerus clausus" na escrita de todos nós (ainda para mais juristas)...

Provavelmente não me expliquei cabalmente.

9:40 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Permio-me uma correcção: "mutatis mutandis" e não "mutantis". A variação do "t" para "d" (em mutandis)é explicada pela construção do gerúndio e do gerundivo latinos. O latim é uma língua com uma gramática muito precisa...
Quanto às expressões por si referidas, cumpre salientar que não são jurídicas, apesar de serem muito utilizadas no meio jurídico.
Mas convenhamos que o cinema é uma realidade bem melhor que o Direito. Venham mais filmes.
Cumprimentos cinéfilos!

2:28 da manhã  
Blogger 奇堡比 said...

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