terça-feira, fevereiro 7

Morte a Venezia

Bjorn Andresen e Dirk Bogarde em Morte a Venezia
Que dizer desta belíssima adaptação do romance "Der Tod in Venedig" de Thomas Mann? À partida não se afigura tarefa fácil, pois estamos a falar de um clássico da literatura, bem como de um filme belo e sensível. Ficar-me-ei por algumas notas a propósito do filme de Luchino Visconti.
Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde), compositor, desloca-se para Veneza de modo a poder recuperar a sua debilitada saúde. Durante a sua estadia, fica deslumbrado com um jovem polaco, Tadzio (Bjorn Andresen), acabando por vir a apaixonar-se. Paralelamente, em Veneza dá-se um surto de peste asiática. Von Aschenbach, após algumas tentativas, vem a descobrir tal facto e avisa a mãe de Tadzio de modo a que esta abandone a cidade, salvando o seu filho. Tal não sucede e Von Aschenbach morre na praia, contemplando Tadzio enquanto este se banha no mar.
Ora, dito deste modo, parecerá que estamos perante um enredo simples. Todavia, tal não sucede. A propósito de vários eventos, vislumbramos várias recordações de Von Aschenbach, desde as suas discussões sobre o conceito de arte, passando pela morte da sua filha ou por uma ida a um bordel, culminando numa actuação frustrada num concerto.
Em "Morte a Venezia" topamos com uma concepção de arte que prima pela racionalidade, pelo trabalho árduo e por uma recta concepção moral (Von Aschenbach), enquanto que do outro lado da barricada vemos o ideal de arte pura, uma arte selvagem que mais não é do que puro génio humano (concepção de Alfred). É precisamente nesse limbo que figura Tadzio: se inicialmente obriga a que Aschenbach se fixe nele, com o decurso da acção vemos uma criatura fria e racional que parece retirar prazer da fixação que Aschenbach tem.
Com isto chegamos ao epicentro de todo o filme: o olhar. Os diálogos não abundam. São desnecessários e apenas funcionam como instrumento para vislumbrar o estado de espírito de Von Aschenbach. De igual modo, é através dos olhos de Aschenbach que vemos Veneza: uma cidade sombria (mas com uma beleza hipnotizante), alheia e distante. Tão distante como o objecto desejado: Tadzio. Tão distante como o modo de encarar a vida e as pessoas que Aschenbach propugna...
Trata-se, pois, dum filme sobre desejo e, acima de tudo, um filme sombrio, onde nem a beleza natural de Veneza se impõe. Pelo contrário, a cidade aparece transfigurada pelo olhar de Aschenbach, daí o tom sombrio que predomina em todo o filme, mesmo nos planos panorâmicos iniciais. Acima de tudo porque a morte não deixa de pairar em todo o filme. Inicialmente, porque a saúde de Achenbach é periclitante e, posteriormente, porque é o surto de cólera que passa a comandar as preocupações de Aschenbach. Como excepção a este tom sombrio temos apenas os planos de Tadzio, dotados de um perfeito onirismo e, simultaneamente, de realidade, fruto do olhar glaciar (por vezes a roçar o zombeteiro) de Tadzio.
De certa forma, o episódio em que Aschenbach vai ao cabeleireiro com o fito de rejuvenescer o seu aspecto poderá ser lido, creio, como uma revolta contra o fim inelutável que se avizinha. Mais do que uma forma de impressionar o impassível Tadzio, Aschenbach ter-se-á enganado a si próprio e terá procurado iludir a sua real condição, vestindo uma máscara de juventude, quando o seu espírito estava irremediavelmente destruído e obliterado pela passagem do tempo. Tão corroído que, às portas da morte, Aschenbach recorda o grande falhanço que o seu último concerto representou.
Morte a Venezia, um filme belo, sensível ao nível do melhor Visconti (verbi gratia, em Il gattopardo, Rocco e i suoi fratelli ou Senso)

3 Comments:

Blogger Ricardo Martins said...

Tu escreves bem que se farta, depois não queres que te diga.

Concordo com tudo o que disseste, só te faltou falar na questão da solidão, que parece ser uma outra temática igualmente importante.

Não só o desejo por Tadzio, mas Morte em Veneza é um terrível filme sobre a solidão dos homens, e a incapacidade de se comunicarem.

E, por isso e outras coisas, é um dos filmes mais comoventes que já vi.

11:02 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Sim a solidão. Os planos iniciais do Aschenbach no navio, o modo de estar perfeitamente nervoso...tudo isso cessa quando vê tadzio, rectius sempre que o vê.

A solidão só nasce quando Tadzio não está no campo visual de Aschenbach. Uma vez mais, em Morte a Venezia o olhar domina por completo. Tudo o resto é acessório/instrumental.

Ah, e não escrevo assim TÃÃO bem. Isso é só simpatia tua companheiro da Pelicular!

12:19 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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