domingo, fevereiro 12

Viagem ao fim da loucura

Klaus Kinski em Aguirre, der zorn Gottes

Adapto o título do célebérrimo Voyage au bout de la nuit de Louis-Ferdinand Céline para me referir a um dos filme mais poderosos que conheço: Aguirre, der zorn Gottes (em vernáculo "Aguirre, a cólera de Deus") de Werner Herzog. Um filme onde o diálogo não abunda e onde, a própósito das expedições de Lope de Aguirre (um genial Klaus Kinski) e de um grupo de conquistadores pelo Rio Amazonas, rumo à cidade perdida de de El Dorado, é-nos oferecido um dos mais grandiloquentes e conseguidos retratos da loucura, captados por uma câmara de filmar.
Estamos perante um filme onde a interacção entre o ambiente e as personagens é levada à perfeição (o mesmo Herzog, anos mais tarde, dar-nos-ia outro exemplo desta simbiose perfeita no extraordinário Fitzcarraldo): a imensidão da selva amazónica que a câmara de Herzog se propôs dominar enche a vista desde o início, a par de uma interpretação memorável de Klaus Kinski.
A personagem de Aguirre, mormente o seu carácter duro, é favorecida pela utilização de um conjunto considerável de planos contrapicados, acentuando a magnitude do seu carácter. Basta lembrar que Aguirre se considera um Deus. Um carácter que, apesar de forte, será dominado pela Natureza, que se encarrega de demonstrar que nem o mais forte dos Homens a pode domesticar (a este propósito, é mister salientar os belíssimos planos panorâmicos do Rio).
Ambição, sonho, sede de glória, eis o que guia Aguirre e o levará à loucura. Uma loucura que cresce à medida que o grupo de Aguirre se aventura no interior da selva (provavelmente, Apocalypse Now de Francis Ford Copolla terá retirado daqui alguma influência). Se inicialmente até se pode falar num certo patriotismo, à medida que se abrem caminhos por entre a vegetação e pelo grande braço de água, a tensão e a luta entre os soldados cresce, como que se se tratasse do instinto de sobrevivência de cada um a vir ao de cima.
A par da manifestação deste instinto primário, que está latente em todo o fillme, vemos o gradual toldar do raciocínio de Aguirre. Onde antes havia objectividade, apenas toparemos com sofreguidão, consequência lógica de uma maior aproximação de El Dorado: a cidade lendária, fito da expedição e coroa de glória que Aguirre deseja só para si, não havendo lugar para proceder à partilha com outros.
Aguirre é o retrato de uma das mais fiéis necessidades humanas: a imortalidade. A conquista/descoberta de El Dorado seria o único modo de ser recordado no futuro, fazendo prolongar o seu nome por anos sem fim. Dito de outro modo, Aguirre tem a noção do absurdo do existir (de certa forma, algo verdadeiramente digno de Camus) e combate desesperadamente para escapar ao fim último.
A expedição, obviamente, fracassa: Aguirre, encerrado no seu círculo de loucura é o único sobrevivente, em ninguém para comandar, para além dele próprio. Quase que se poderia dizer que a Natureza (ou mesmo Deus) goza com Aguirre, que acaba sozinho numa jangada. Do mesmo modo, poder-se-á dizer que é o céu cinzento (que está omnipresente em todo o filme) que decide cair sobre Aguirre, colocando-o no seu verdadeiro lugar, reduzindo-o à sua insignificância.
Um filme perturbante e que marca de forma indelével a memória, tal é a força da interpretação de Kinski (nunca é, nem será demais repetir e insistir neste ponto) aliada à mestria ímpar de Herzog. Um filme a ver e rever.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Apenas um pequeno reparo, caro Hugo - o filme de Herzog nao tem influencias de Apocalipse now. A razao nao pode ser mais simples: Aguirre foi feito alguns anos antes do epico de Coppola...

Abracos

2:56 da tarde  
Blogger Hugo said...

Claro que sim. Tal deve-se a defeito meu na expressão. Quando digo "rovavelmente, Apocalypse Now de Francis Ford Copolla terá tido aqui uma certa influência", queria dizer "provavelmente, Apocalypse Now de Francis Ford Copolla terá retirado aqui uma certa influência".

Aliás, é algo que parece latente em ambos os filmes: à medida que os protagonistas se aventuram na selva, vão ficando cada vez mais enlouquecidos.

Muito obrigado pelo reparo! (será corrigido)

3:02 da tarde  

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