sábado, outubro 20

Notas soltas: Berlin Alexanderplatz*

Quando se é dominado pelo desejo de levar uma vida normal e honesta, como Franz Biberkopf, esta é a pergunta básica: como assegurar uma existência condigna sem perpetrar quaisquer actos ilícitos. Acontece que, precisamente por tudo correr (quase) sempre de forma contrária à incialmente planeada, a pergunta adequada talvez possa ser estoutra: Wie soll man sterben, wenn man nicht leben will ? Pena penosa esta a da existência em que o simples acto de existir dói. É uma pena, em sentido próprio. Com a cruel curiosidade de se fazer sentir após Biberkopf ter cumprido as suas obrigações para com o sistema penal germânico.

Berlin Alexanderplatz, o romance de Alfred Döblin, dá-nos um retrato não destinado aos turistas incautos de Berlim: vai para além do coração berlinense Alexanderplatz, optando por percorrer vielas e ruelas, descrevendo os seus habitantes. De colagem em colagem, vamos tendo uma panóplia de histórias que têm em Biberkopf o denominador comum (em alemão, talvez haja uma palavra mais expressiva: Treffpunkt). Na adaptação fílmica de Rainer Werner Fassbinder, as ruas são meros cenários que enformam e enjaulam o sofrimento dos habitantes. O desespero é intenso: é a pena a pagar pela existência. Como se tal não bastasse, existe, ainda, a propensão para nos sentirmos estrangeiros numa terra que já não conhecemos. Biberkopf (perdão, Fassbinder), sente na pele - e nos recônditos mais íntimos da alma - a impossibilidade de integrar-se numa sociedade insensível e alheia a dramas pessoais. Sobra a angústia da existência, a incapacidade de ser, a dor não pertencer a algo ou a alguém. Uma pena insensível e fria. Provavelmente, uma demonstração exemplar da dimensão agónica e trágica - ao jeito de Miguel de Unamuno - da vida.

* Metralhadas imediatamente após ter re-descoberto os primeiros 3 episódios de Berlin Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder. Sobre o romance de Döblin, pode-se consultar este sítio web (nur auf Deutsch)