sexta-feira, setembro 28

Solidão

Coisa bela a solidão, Miss Allen. Moustaki dá disso exemplo em Ma solitude. Tal como Irene Lisboa que, em Solidão, diário das notas soltas do quotidiano de uma mulher, eleva a objecto de estudo tão insidioso sentimento. A dada altura (p. 55 da edição do Círculo de Leitores, de 1973) podemos ler [sobre a solidão do homem de letras]:
"(...) Falava-nos do prazer da companhia dos outros homens e ao mesmo tempo da solidão de cada espírito, que nunca encontra em outro o seu perfeito desdobramento, o seu complemento...
Em todo o caso, esta solidão sempre nos regala de visões e de panoramas sobre a diversidade dos espíritos! É a grata, curiosa solidão dos que criticam os outros, e com isso gozam(...)"
Esta mafarrica solitária, tal como Mefistófeles, tem muitas vestes e procura acomodar-se aos nossos desejos, fazendo-nos ensimesmar, esquecendo o Outro e esquecendo-nos de nós próprios. É uma prisão com grades translúcidas que, dando-nos a sensação de gozar a companhia alheia dos que se cruzam connosco, nos faz refastelar no comodismo egoísta do Eu. Acontece que enquanto estamos com ela, nunca estamos sós. Um belíssimo paradoxo alimentado pela dor da ausência ou pela ilusão da companhia da solidão. Em suma, um mundo de sombras. Talvez um sinónimo de alienação.
* Miss Allen, co-autora de um dos meus blogues favoritos: o regabofe