terça-feira, junho 13

Une femme est une femme

Jean-Claude Brialy e Anna Karina em Une femme est une femme


"Angela, tu es infâme."
"Non, je ne suis infâme. Je suis une femme"

Assim acaba Une femme est une femme, recriação Nouvelle Vague do eterno feminino. O primeiro filme de Godard a cores, em scope e, certamente, o filme mais efusivo do autor. À partida, poderíamos dizer que vimos o primeiro filme de Godard e Karina, mas acontece que este é o primeiro filme sobre Anna Karina. Paralelamente, Une femme est une femme é um verdadeiro bálsamo para a Alma. A sua originalidade, jovialidade e ipertinência embalam o espectador, tal como o embala a câmara de Godard, hipnotizada por Karina.
Une femme est une femme é um filme verdadeiramente Nouvelle Vague. Basta atentar que Godard ainda dialoga com Truffaut: Tirez sur le pianiste é formidável diz-nos Angela (Anna Karina), perdão Godard, e, mais importante, Jeanne Moreau, lui-même diz-nos que está a filmar Jules et Jim. Mas, a par deste diálogo pleno de cumplicidades, vemos, também, o humor corrosivo de Godard: Lubitsch (Jean-Paul Belmondo) dirá Hoje passa "O acossado" na TV. Eu quero ver!.
Simultaneamente, teremos a oportunidade de ver, em estado semi-embrionário, toda a linguagem cinematográfica que Godard desenvolverá em obras como Le mépris ou Pierrot le fou: actores dirigindo-se ao espectador, a procura de uma meta-linguagem, a exploração do absurdo e do surreal (os passeios de Émile de bicicleta pelo apartamento, as discussões de Émile e Angela, numa simbiose entre palavra (capas dos livros) e imagem), as inúmeras citações cinéfilas (a personagem de Belmondo, Lubitsch, é o exemplo mais óbvio)...


Vimos um exercício magistral de Godard que, enquanto aperfeiçoava os seus dotes enquanto realizador, não deixou de desconstruir o musical americano. Não é à toa que veremos Émile dizer Ce film n'est pas un musical. C'est une tragédie!. Godard procurou a re-invenção, a anarquia e o desrespeito das regras e dessa desordem nasceu um filme fundamental. Tudo isto a propósito de uma mulher que queria engravidar (Angela) contra a vontade do marido (Émile), aparecendo pelo meio o amigo voluntarioso: Lubitsch. Apesar da formação deste triângulo, Une femme est une femme foi sempre um filme sobre Émile e Angela. Com efeito, não vimos um triângulo amoroso tal como víramos em Jules et Jim de Truffaut. Pelo contrário, vimos uma análise ao melhor estilo de Godard acerca das relações entre homem e mulher, sendo que, neste casom ficámos assoberbados pela presença de Anna Karina, aquela que viria a ser recriada por Bardot em Le mépris.

Acima de tudo Godard provou que qualquer pretexto (ter um filho, neste caso) serve para se fazer um grande filme. Mais importante: Karina não é une femme. Ela é la femme, aquela que Godard projectou para o ideário masculino como a súmula das qualidades femininas. De musa do realizador, Karina passou a ícone da Nouvelle Vague para gáudio de todo o cinéfilo.

8 Comments:

Blogger mig_domingues said...

Ah e tal, e quando é que isto é gravado para o povo (substitua-se "povo" por "eu" e ter-se-à uma ideia melhor do significado da frase)? LOL

Cumprimentos,
Miguel Domingues

10:38 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Caríssimo, esta pérola veio na versão sem extras e sem legendas (a França já teve dias melhores, aparentemente)...

Mesmo assim, é sempre um prazer ver e ouvir a "tríade" Belmondo-Karina-Brialy...Melhor mesmo só quando for a vez de ouvir o dueto Belmondo-Karina a cantar "ma ligne de chance..." naqueles que para mim, são dos 6 minutos de Cinema mais intensos que conheço...

Abraço!

10:50 da tarde  
Blogger mig_domingues said...

Tá, bem, mas não deixa de marchar por isso. Aviso que como moeda de troca, tenho a partituta do Couraçado Potemkin escrita pelos... Pet Shop Boys.

Já agora, creio que se impunha um texto sobre o panorama de dvd's franceses, dos que viste e dos que trouxeste: preço, grafismo, variedade... Só uma sugestão.

Take Care,
Miguel Domingues

11:00 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Miguel: fizeram-mos chegar! Para mal dos meus pecados, estou auto-condenado a escrever furiosamente relatórios de mestrado aqui no quintal à beira-mar plantado.

Abraço!

PS - o panorama francês é melhor, de longe, basta ver os inúmeros "coffrets" de qualidade que vão aparecendo: Melville, integral Truffaut, Trois Couleurs (com extras!), Trilogia da Vida (com extras!). Acima de tudo, criam inúmeras edições de qualidade para coleccionadores e não descuram a faceta mais "popular", lançando edições menos dispendiosas de mestres como Renoir, Rossellini ou Visconti... Hélas!

12:01 da manhã  
Blogger H. said...

Este filme é tão mas tão adorável, que é quase difícil eu articular alguma frase sobre ele sem um sorriso :)
Às vezes gostava de viver num mundo em que as discussões fossem mantidas com base em títulos de livros...

11:58 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Somos dois, cara Helena! Eu também gostaria de viver num Mundo onde pudesse andar de bicicleta em casa, um Mundo de boémia, dos cafés, das conversas calorosas e recheadas de livros (é belo ver como Godard não os desprezava...). Um Mundo com esperança no outro, com confiança e amizade. Um Mundo musical, alegre e contagiante...onde andamos sempre com um sorriso nos lábios (suspiro)

:-)

4:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Este filme transparece a suavidade e delicadeza da força da natureza que supera toda a razão feminina: a vontade de ser mãe.
Gostaria de saber qual é o nome da pequena peça de piano que toca ao fundo, no diálogo entre o casal no parte final do filme. Alguém pode me informar?

2:15 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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