quinta-feira, junho 8

A magia da projecção

Salvatore Cascio em Nuovo Cinema Paradiso

O jovem Toto, tal como todos os seus conterrâneos, procurava esquecer a pobreza da Sícilia rural e atrasada, fugindo para a única distração ao seu alcance: o Cinema Paraíso, santuário da imaginação e Meca dos sonhos. É no Cinema que esquecemos o que nos rodeia. (uma gargalhada, uma lágrima teimosa,...), mas cada um terá uma sensação única, irrepetível, intimamente sua. Cada um vive o seu filme. Rectius, cada um reconstrói o filme que viu.

Ver um filme não implica uma atitude passiva. Pelo contrário, há que interrogar-nos sobre o que vemos. Cinema é ilusão, como o mostra, por exemplo, o processo que transforma o dia em noite – a noite americana. E surge célere a questão: “o que vimos era, efectivamente, o que julgámos ver?” Instintivamente, somos acossados pela necessidade de desconstruir o que vimos, para a partir dos escombros resultantes erigirmos os pilares do que vimos e pensámos ver, lançando as fundações da nossa cultura cinéfila. A cinefilia é um exercício misto de memória e problematização.

Toto ficava com um brilhozinho nos olhos e ganhava uma alegria indisfarçável quando a sala escurecia. O rosto iluminava-se e sentia uma atracção fatal para poder entrar no coração dos sonhos: a cabine do projeccionista. É aí que conhecerá a solidão do cinéfilo, graças a Alfredo, aquele que trabalha sempre, faça chuva ou Sol e dá por si a falar com Clark Gable ou Rita Hayworth. O cinéfilo é um ser solitário.

Toto, por seu turno, gozará de sensações agridoces, sempre entre o prazer da projecção dos espectros e a angústia da solidão da cabine. E, de certo modo, temos traçado o perfil da Arte que nos hipnotizas: temos o prazer de ver um filme e, por vezes, damos por nós a lamentar a solidão a que nos votamos. Eis-nos perante a doença diagnosticada por Truffaut. Tudo residirá, pois, no sopesar de qual dos sentimentos prevalecerá. O cinéfilo dá preferência ao Cinema. Vive para ele.

Na verdade, o Cinema toma conta de nós, guia-nos, dá-nos lições de vida. Mais do que uma realidade paralela, projecta-se para a vida do dia-a-dia. Um filme nunca acaba quando a luz acende. Continua e, o mais das vezes, um qualquer acontecimento do quotidiano leva a que um qualquer plano nos incendeie o olhar. Nesse preciso momento atingimos, por assim dizer, o Nirvana: vivemos cinematograficamente.

É essa a essência do Cinema, o fascínio que, insidiosamente, vira obsessão: vemos um filme vezes sem conta e não nos cansamos, projectamo-nos nas histórias que vemos, tal como as imagens se projectam na tela. Ser cinéfilo é ser Cinema. É projectarmo-nos no que vemos. É abstrairmos a realidade física que nos rodeia. É fugir ao sensorial e entrar no universo dos espectros, os bonecos de luz que nos fazem sonhar. Não há realidades paralelas. Há apenas um ente híbrido, fruto da fusão da realidade que nos é dada a perceber com aqueloutra que nos abre as portas do imaginário.

Em conclusão: Cinema e Vida são um só. Um ente uno e indivisível, disponível para amar e ser amado.

9 Comments:

Blogger manu said...

o ke é um cinéfilo? :)
uma kestão interessante!
como para os actores às vezes é difícil despirem o papel de uma personagem kuando ouvem "corta", para o cinéfilo será difícil desligar-se do ambiente cinematográfico depois da luz acender, até porke, como disse Godard: "La vie c'est du cinéma, et le Cinéma c'est la vie", o ke eu concordo mas ke poderá gerar alguma confusão à saída do cinema.

9:43 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Talvez mais do que confusão, o cinéfilo deixa-se inebriar pela realidade que viu. La vie c'était l'écran como diria Truffaut :-)

11:38 da manhã  
Blogger mig_domingues said...

Só tenho um problema com o teu texto, companheiro: a referência a esquecer o mundo exterior quando se está no cinema. Gosto de Cinema dado que este me faz pensar sobre o mundo exterior à sala escura...

De resto, belo texto, como de costume.

Take Care,
Miguel Domingues

8:57 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Grande Miguel:

Sim, o Cinema, tal como qualquer grande livro tem esse efeito. Será que após o teu interlúdio académico terei direito a outra carta aberta? :-)

Abraço

HA

9:23 da tarde  
Blogger Tiago Tejo said...

O Miguel Domingues tem plena verdade, mas eu gosto de me deslocar ao mundo do cinema quando estou cansado daquele a que carnalmente pertenço.

Gosto imenso do mundo paralelo que se cria dentro duns metros quadrados de escuridão.

Abraço.

6:12 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Exactamente, grande Tejo! No meu caso é o mesmo: a ida ao Cinema serve para abstrair da realidade que me envolve. Acontece que, o mais das vezes, depois de acabada a projecção, projecto o que vi na tela como o que os meus olhos vêm e vice-versa.

Essa, no meu caso, é a grande magia do Cinema.

Abraço!

10:02 da tarde  
Blogger manu said...

dizer ke: a grande magia do Cinema
é o facto de servir para o abstrair da realidade que o envolve parece-me bastante redutor.
não acha ke o ke se passa cá fora é, às vezes, uma fachada e o ke se vê no cinema é, às vezes, a vida?
é ke o mundo não roda à sua volta.
:)

11:36 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Manu: também

11:58 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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