Um local solitário
Humphrey Bogart e Gloria Grahame em In a lonely placeNicholas Ray sempre mostrou simpatia por inadaptados, fossem eles rebeldes ou não (Rebel without a cause). In a lonely place não é excepção.
Dixon Steele (sublime Humphrey Bogart) é um escritor que se recusa a trabalhar num projecto que não gosta. Cínico, temperamental, Dixon está em plena travessia do Deserto, dado que não tem logrado alcançar nenhum sucesso. Acaba por ser-lhe oferecido o trabalho de adaptar um livro e, como não tem vontade em lê-lo, pede a uma empregada de um restaurante que o acompanhe a casa para lhe contar o a história. Despedem-se e, horas depois, Dixon é acordado por um detective, seu velho amigo, que lhe comunica a o homícidio da rapariga. Dixon é o principal suspeito.
É nessa altura que conhece Laurel (Gloria Grahame), por quem acabará por se apaixonar, naquilo que mais não será do que um mero idílio temporário. Durante esse idílio, veremos os aspectos mais obscuros de Hollywood: desde a ingratidão dos jovens produtores (não é à toa que se chame Junior) para com estrelas do passado. Uma Hollywood que manda para o caixote do lixo todos aqueles de que já não precisa. É a Hollywood do studio system, aquela que Ray abominava e que Bogey tentou combater com a sua Santana Pictures.
E Dixon é Ray: partilha do seu temperamento, dos seus ideais e da sua visão negativa da fábrica dos sonhos. In a lonely place, comummente classificado como um clássico do film noir, é a visão dessa farsa do studio system. Vimos a Hollywood das glórias efémeras, do utilitarismo, da prossecução de objectivos meramente individuais, onde todos desconfiam de todos. E será nesse antro de perdição ou caso, prefiram, de sujidade, que teremos o privilégio de ver a amizade desinteressada entre Dixon e o seu agente, o amor verdadeiro entre Dixon e Laurel, a amizade entre Dixon e o seu velho camarada de armas...
In a lonely place, filme com as vestes do film noir, vai mais além, superando-o: é um filme sobre emoções verdadeiras, sobre o lugar do verdadeiro artista em Hollywood. É a própria visão de Ray sobre Hollywood. Apenas o homicidio será o ponto comum ao noir típico. In a lonely place é um filme honesto, verdadeiro: todas as emoções existem e fazem com que o espectador se identifique, desde logo, com as personagens.
E a par dessa honestidade, temos toda a mestria de Ray: In a lonely place é uma pérola do mise-en-scène, da iluminação (que nos faz lembrar o expressionismo alemão, que, aliás, neste particular, influenciou decisivamente o noir), dos diálogos e dos movimentos de câmara.
E teremos um fim obscuro, típico de Ray. Com tudo resolvido e Dixon inocente, o idílio cessa, tal como cessa o amor. e aí ouvimos os belos versos de Walt Whitman pela voz de Laurel:
"I was born when she kissed me
I died when she left me
I lived a few weeks while she loved me"
"I was born when she kissed me
I died when she left me
I lived a few weeks while she loved me"
E ficará uma dúvida: a dada altura, Dixon pensava colocar estes versos no argumento que estava a escrever e, mais tarde, será Laurel a pronunciá-los, equanto Dixon se afasta para o seu recanto solitário. Acaso teremos visto um filme dentro do filme?
Uma coisa é segura: vimos uma das obras máximas do Cinema.


5 Comments:
"I was born when she kissed me
I died when she left me
I lived a few weeks while she loved me"
Este filme afecta-me demasiado pessoalmente, para poder dizer mais do que isto.
é mais que noir, sem dúvida, mto mais.
o que mais me toca nos inadaptados do Ray é como o amor é sempre tão perfeito, tão demasiado perfeito para poder viver neste mundo imperfeito.
fico sempre com um misto de êxtase e depressão qdo vejo os seus filmes. talvez por isso, ironicamente ou ñ, me seja tão fácil amá-los...
Da mesma forma que a temática do filme me lembra (muito ao de leve) "the portrait of the artist as a young man" do James Joyce, este genial "In a lonely place" funciona como um libelo acusatório contra o studio system de Hollywood. Mais do que isso, quase que funciona como afirmação programática do Cinema de Ray. Todo o Ray está lá, tal como todo o Cinema.
E sim, é impossível não nos identificarmos com os inadaptados de Ray. De certa forma, cada um deles habita em nós, rebelando-se contra todas as injustiças que vamos vendo.
Puro génio!
Pois, e é nestas alturas que um gajo, que até mestava de folga quando os filmes foram exibidos, se lamenta de ter de estudar.
(pequeno momento de auto-comiseraçâo)
Take Care,
Miguel Domingues
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