sexta-feira, janeiro 27

Once upon a time in the West

Charles Bronson e Henry Fonda em Aconteceu no Oeste

Sergio Leone é daqueles realizadores que tem um lugar cativo nas minhas preferências. Após ter realizado o movimentado, enérgico e tresloucado "il bonno, il brutto e il cattivo" (que, mesmo assim tem mensagens subliminares sobre o horror da 1.º guerra mundial (Batalha para conquista de uma Ponte. Até tem trincheiras e tudo) e da 2.ª Guerra Mundial (prisão de Blondie e Tuco. Referência aos campos de concentração)), Leone presenteou-nos com o primeiro dos filmes pós-modernos que é uma verdadeira obra de arte "Once upon a time in the West" (Aconteceu no Oeste).

Porquê pós-moderno? Porque faz uso como poucos da citação cinéfila: todos os grandes Westerns estão lá devidamente identificados (High Noon, Johny Guitar e Shane são algumas das fontes). Porquê um obra de arte? Porque a forma magistral como o Oeste é filmado faz com que fiquemos colados à acção. Mas estamos a falar de um filme de Leone e, como tal, temos os clássicos close-ups (quem se esquecerá do enorme plano dos olhos de "Harmonica" (Charles Bronson)??) sobre os actores seguidos de amplos planos sobre a paisagem (a chegada de Jill (deslumbrante Claudia Cardinale) à estação e a panorâmica de uma cidade em construção em crescendo com a música de Ennio Morricone é arrepiante)...

Em "Aconteceu no Oeste", Leone não se coibe de, verdadeiramente, lançar um olhar amargo sobre o progresso. Já não topamos com a caçada louca a $ 200.000, mas sim o avanço da ferrovia no Velho Oeste e a consequente necessidade de "limpeza" de tudo o que se põe no seu caminho. É aí que conhecemos o poderoso Morton (Gabrielle Ferzetti, o mesmo de "L'Avventura de Michelangelo Antonioni) que, mau grado o seu poder, vive fechado num vagão pois tem os ossos corroídos. Trata-se, obviamente, de uma clara metáfora da visão de Leone sobre o poder e o capitalismo selvagem: fortes no poder, mas fracos de corpo e alma.

Encontramos, támbém, um brilhante Henry Fonda, a fazer o seu primeiro papel de anti-herói. Já não temos o simpático e afável Tom Joad de "Grapes of Wrath", mas sim um frio e gélido assassino profissional, capaz de promover autênticos massacres, de que a carnificina inicial no Rancho é o exemplo máximo. Nesta cena, é brilhante a forma como Leone usa o silêncio para criar um clima de tensão, apenas rompido com os disparos que iniciam o massacre. Tal como é brilhante a aparição de Fonda, que aparece no meio da poeiria, filmado de costas inicialmente com uma câmara que gira à sua volta até parar no seu olhar gélido (um plano capaz de fazer parar o sangue de correr nas veias).

Creio que o verdadeiro motor da acção é Cheyenne (um excelente Jason Robards), o ladrão romântico e herói pícaro. É ele que tem a habilidade de tecer comentários sobre as personagens e de lançar com mestria os momentos de humor do filme (a sequência sobre notas em falso e sobre saber disparar num bar em plena pradaria, por exemplo), bem como o inesquecível diálogo com Jill já no fim do filme.
Todavia, a acção centra-se em Harmonica (enigmático Charles Bronson), que desde o princípo filme apenas persegue Frank (Henry Fonda). Leone gere muito bem esta obsessão através de umas breves analepses que, com o decorrer do filme, se vão alongando, até toparmos com um incrivelmente rejuvenescido Henry Fonda que, afinal, tinha assassinado o irmão de Harmonica.
A chave do mistério de Harmonica...
Onde é que Leone inova? Relativamente à sua filmografia prévia, inova porque lança como personagem principal uma mulher: Claudia Cardinale (até aqui as mulheres eram um mero fait divers no decurso da acção). Paralelamente, também inova noutro pormenor que não é despiciendo: cada uma das quatro personagens tem um tema musical próprio, que permite indicar o momento em que entrarão em cena.

Em suma, estamos perante um filme onde Sergio Leone desconstrói o Western clássico de Hollywood, fornecendo-nos um carrossel de personagens bem construídas, mas onde sentido cénico e estético predomina. A ver, rever e voltar a ver.