sábado, janeiro 28

La Grande Illusion

Eric von Stronheim em La Grande Illusion
Um filme tocante sobre a Guerra e sobre os laços que se criam entre homens provindos de classes sociais diferentes: o aristocrata De Boldieu (Pierre Fresnay) e Maréchal (Jean Gabin), que são feitos prisioneiros num campo alemão.
Renoir tem aqui uma das suas obras de maior cariz político, dado que é filmado na iminência de um novo conflito à escala mundial, pelo que pode ser visto como uma síntese do que virá e serve, acima de tudo, para agitar consciências, fazendo pensar na justeza/necessidade do conflito armado.
Uma das tónicas principais de todo o filme prende-se com a emergência de uma nova ordem social. É uma situação que fica vísivel de forma meridiana no diálogo entre Boldieu e Rauffenstein (Eric von Stronheim), quando Boldieu, às portas da morte, refere que tem pena de Rauffenstein, pois este ficará vivo para assistir à queda dos aristocratas e à emergência de uma nova ordem a que terá de se habituar. Renoir traça, pois, o fim de uma época, o fim de determinados valores incorporados em dois aristocratas (Boldieu e Rauffenstein) que vêm a Guerra como um dever moral e não como uma mera obrigação (caso de Maréchal). Concomitantemente, Renoir parece antecipar o que virá a suceder anos mais tarde: o advento da mediania, em detrimento da urbanidade e da elevação cultural e consequente desaparecimento de valores fundamentais na relação humana.
A segunda grande tónica do filme está ligada à solidariedade entre homens, brilhantemente expressa na guarida que uma viúva alemã dá aos fugitivos Maréchal e Rosenthal (como que dizendo que apenas os dirigentes de um País declaram guerra a alguém) ou no saríficio da sua própria vida que Boldieu faz, para que os seus companheiros se possam evadir da prisão alemã (neste particular é tocante a forma como é demonstrada a relutância de Rauffenstein ao mandar abater Boldieu. Inimigos, mas daqueles que se admiram e respeitam).
Renoir tem ainda o grande mérito de antever a ascensão do fascismo e da possibilidade de um novo conflito mundial (lembre-se que falamos de um filme de 1937), pelo que a cena em que os prisioneiros, ao tomar conhecimento de uma vitória militar aliada, acabam por cantar "A Marselhesa" tem de ser vista, forçosamente como um grito de revolta e liberdade não dos soldados, mas do próprio Renoir.
E como nota de curiosidade, há que atentar, ainda, na lucidez de realizador que, cirurgicamente, lança a questão do anti-semitismo: Rosenthal é filho de banqueiros judeus e só é tolerado pelos seus companheiros de prisão, porque a família lhe envia iguarias muito apreciadas pelos prisioneiros...
E como estamos perante uma Grande Ilusão, o filme acaba com Maréchal e Rosenthal a continuarem a sua caminhada rumo à Suiça e à Liberdade, ignorando que já são livres, pois estão em território suiço.
Estamos perante um filme de guerra, mas não perante o clássico filme de guerra, dado que não há qualquer cena de batalha. Tudo se passa no isolamento e reclusão de uma prisão, mas, mesmo assim, ficamos com clara mensagem de que a guerra é um exercício fútil. Apesar de não vermos explosões, deparamos com um verdadeiro libelo acusatório contra a estupidez humana e contra a violência. É desta massa que se faz um grande (enorme!) filme e um realizador magistral.
Uma obra-prima.