domingo, julho 1

Da incompreensão: White Dog

White Dog será, provavelmente, dos filmes mais vilipendiados que há memória e, também por isso, dos menos conhecidos (leia-se, vistos) de Samuel Fuller. Afinal de contas, tendo em consideração a fama de Fuller e o facto de esta ser a a história de um cão treinado para atacar negros - um White Dog que, ironicamente ou não, até é branco como a neve - e tudo apontava para as leituras simplistas que lançaram o epíteto de racista e reacionário.
Ora, só um cego pode dizer uma barbaridade dessas. White Dog é uma portentosa metáfora do racismo. Ao fazer de um animal irracional o protagonista de todos os ódios raciais que imperam nos EUA, Fuller limitou-se a demonstrar, precisamente, o que o racismo é: um medo absolutamente primário e irracional. Se dúvidas houvesse quanto à visão negra de Fuller, ela é dada a final: um treinador de animais negro combatendo o ódio do cão. Sobra uma conclusão: os maus instintos (os vícios, na expressão enfática do filme) vingam sempre, mesmo quando tudo se resume a um duelo mano-a-mano. Em White Dog - como é timbre do Cinema de Fuller - o medo é a semente de violência. É o catalisador de reacções. É ele que explica as várias reacções dos intervenientes. Mas White Dog é mais do que uma história sobre ódios raciais: também é uma curiosa abordagem das relações ente Homem e animais, inserindo-se, assim, na linha de obras como Au Hasard Balthasar de Robert Bresson.
Este é um Fuller vintage: seco, directo e violento. Uma obra a carecer de divulgação para que, finalmente, veja retirados os falsos (e absolutamente infundados) epítetos de que tem sido alvo. Se dúvidas houvesse quanto à mestria de Fuller, elas ficam dissipadas: a utilização de técnicas típicas do filme de terror é levada ao extremo na construção de um filme denso e acutilante.