terça-feira, maio 15

Moravia, "Dessublimato"

Alberto Moravia é um escritor muito prezado neste recanto. Eis um motivo. Em Moravia, o Cinema é, o mais das vezes, figurante, protagonista e cenário (pense-se, por exemplo, em O desprezo, obra-base do filme homónimo de Jean-Luc Godard):
"Intrigante! Astucioso! Traiçoeiro! Vil! Eis como manténs as tuas promessas! Eis como respeitas os pactos. Durmo, tenho uma quantidade de sonhos indiferentes que agora não recordo, e, no fim, sonho estar num estúdio cinematográfico, enormíssimo, imerso na penumbra. Num ângulo, sobre o carrinho está a máquina de filmar coberta por um pano preto. Sei seguramente que está girando, finalmente!, o "meu" filme. Qual filme? Quem é o produtor? Quem são os actores? Não o sei. Sei somente que é o "meu" filme. O filme no qual penso há quinze anos. O filme do qual depende toda a minha vida. Eis que salto para o carrinho, sento-me no banco e, curvando-me para a frente, com um gesto desenvolto e profissional, ponho o olho na objectiva.(...)"
Eu e ele, (tradução de Marques Gastão) Livros do Brasil, p. 9