segunda-feira, abril 30

Filmar literatura, escrever filmes

Com o título deste post, poderíamos, facilmente, ser tentados a evocar Teorema, de Pier Paolo Pasolini, obra que conheceu duas expressões distintas: filme e livro, cada uma delas, sublime à sua maneira. Todavia, desta feita, cede-se a palavra a Eric Rohmer, a propósito dos seus Six Contes Moraux:
"(...)Houve outra razão que me forçou a dar aos Contos um cunho literário. A literatura, neste caso - e é essa a minha principal desculpa - tem menos a ver com a forma do que o conteúdo. A minha intenção não era filmar episódios brutos, mas o relato que alguém fazia deles. A história, a escolha dos factos, a sua organização, a forma de os apreender estavam "do lado" do próprio tema, não do tratamento que eu podia fazer desse tema. Um dos motivos porque se diz que estes Contos são "morais" é que são quase totalmente desprovidos de acções físicas: tudo se passa na cabeça do narrador. Contada por outra pessoa qualquer, a história seria diferente, não existiria.(...)"
Eric Rohmer, Seis Contos Morais (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo), Lisboa: Edições Cotovia, 1999, pp. 11-12
Seis Contos Morais (livro) é, pois, a antecâmara cronológica dos Six Contes Moraux (filmes) mas é, simultaneamente, o prolongamento da sua projecção. Um exemplo de puro prazer. Visual e não só.