domingo, dezembro 17

Bigger than life, uma viagem à loucura


Em Bigger than life Nicholas Ray dá-nos mais um exemplo do seu virtuosismo enquanto realizador. Houvesse de escolher um plano capaz de o resumir e ele seria o de um Avery (soberbo James Mason) fitando-se num espelho partido.
É com o quebrar do espelho que se opera a cristalização do destruir do Universo da família Avery. Com esse espelho quebrado, o universo que as personagens conhecem transforma-se numa sucessão de fragmentos, à imagem das várias fracturas que se vão desenhando no espelho. Mas é, também, o sinónimo da perda. Graças a esse espelho quebrado, Avery deixa de poder contemplar-se. Ora, para quem está invadido por uma febre megalómana, tal significa o seu desaparecimento, a insignificância da sua existência. Quebra-se o espelho e desaparece o Homem, dando lugar aos fantasmas que o dominam.
Bigger than life é, assim, o retrato da megalomania e da alucinação. Mas é, também, um libelo acusatório contra a mediocridade e a banalização da ignorância. O que não deixa de ser irónico, uma vez que Ed Avery apenas brandirá argumentos contra mediania em plena fase de delírio. Dir-se-ia que Nicholas Ray transformou o megálomano Avery numa metáfora dos EUA, uma vez que, inicialmente mais não é do que um mero conformista e, após o recurso à cortisona, a par das tomadas de posição de cariz fascista, não tem pejo em atacar alguns dos principais aspectos civilizacionais dos EUA: desporto, religião, ciências, história e disciplina, dando um retrato jocoso de um país menor e provinciano. Pior do que isso: conformista.
Ray "limitou-se" a desenvolver todo o iter que ditará o caminho para a perdição, id est o momento em que Avery passa para trás do espelho e cede à loucura. Nesse caminho temos todo o virtuosismo de Ray, que é capaz de transformar objectos adorados em instrumentos de tortura, como uma simples bola. Ora, é precisamente neste particular que Bigger than life também impressiona: pelo bailado de objectos que se vão sucedendo e vão ganhando diferentes conotações, consoante o estado de espírito de Avery.
Em Bigger than life tudo se quebra, tal como o espelho, à excepção das paredes da casa. A casa funciona assim como uma espécie de fortaleza inabalável que, mesmo após as tormentas, está apta a albergar os seus ocupantes.
Post scriptum, à guisa de curiosidade: Bigger than life, à imagem de In a lonely place, é um filme de pendor autobiográfico. Desta feita é Ray que se projecta em Avery, uma vez que à época o realizador vinha experimentado os efeitos da adicção ao alcoól e às drogas.

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Não diria que a casa é uma fortaleza imbatível: pelo contrário vai-se destruindo aos poucos, primeiro com um vidro partido ao jogar à bola, depois com o espelho, e por fim com a luta final em que as escadas são destruídas e tudo fica de pés para o ar. A loucura dá cabo de tudo... menos dos sentimentos.

1:48 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

"A casa", leia-se as 4 paredes exteriores, porque tudo o resto lá dentro está feito em cacos. E sim, só ficam os sentimentos.

1:51 da manhã  
Blogger wasted blues said...

Grande filme de Ray, descoberto há uns anos na cinemateca. O teu texto, como sempre, é muito bom ;)

2:33 da manhã  
Blogger H. said...

Não deixa de ser interessante que a crítica seja essencialmente feita quando ele já está plenamente sob os efeitos alucinatórios da cortisona. É uma forma subtil de "o louco dizer as verdades".

Apesar de ter ficado presa a vários de aspectos do filme, confesso que me desagradou o final feliz "milagroso"...

(Mas independentemente disso, fiquei feliz por vos ter conhecido, ainda para mais num Nick Ray!)

10:38 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

É o Ray que a cinemateca decide passar constantamente, que acho bem inferior a outros filmes seus. é pena.

1:44 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Helena: ora por quem sois :-)

Francisco: Nada é perfeito :(

4:38 da tarde  
Blogger Ricardo Martins said...

Este filme e o que o eu chamo a quase obra-prima de Ray. Melodramatico, semi-sirkiano, e aterrorizante, vale sempre a pena rever.

E bom ver que a Cinemateca continua a dar-lhe com o Ray. Btw, quantas pessoas la estavam nesse dia? E fundamental que as geracoes mais novas descubram filmes como este.

7:08 da tarde  
Blogger mig_domingues said...

Gosto tanto, mas tanto de Bigger Than Life. Por diversos aspectos, dos quais menciono apenas um, a visão da "malaise" dos anos cinquenta americanos, tidos como era de paz e tranquilidade.

12:38 da tarde  
Blogger John Elias and Michelle said...

não me lembro do "final feliz milagroso", lembro-me de uma frase, que o James diz lá para o final, que me alterou totalmente a percepção do filme e que me ficou gravada para sempre.

12:40 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O final feliz milagroso corresponde mesmo ao último plano. Também o acho muito forçado, se não até irrealista. Mas o filme é fantástico, isso é.

1:15 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

John Elias and Michelle, também essa foi uma das que me ficou na mente. Faz-me lembrar uma tirada de Nietzsche ou mesmo de Feuerbach.

Obrigado pela visita! :-)

2:32 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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6:35 da manhã  

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