terça-feira, dezembro 11

"Bater na parede"

Lembro-me de, a dada altura, ter esbarrado no meu primeiro Straub-Huillet (Sicilia!): murro no estômago, soma-se um directo bem aplicado e Ramos Alves ficou KO. Pela primeira vez tinha a sensação de ter chocado de frente com um filme difícil de ser compreendido e que se apresentava, a priori, avesso a tais actividades exegéticas, tal a distância colocada entre ele e o espectador incauto que, em bom rigor, não estava preparado para aquilo.
Anos volvidos, mais sabidote, (sobretudo, com muita coisa vista na bagagem) caí no buraco aberto por La cicatrice intérieure, de Philippe Garrel. Mais do que a sensação de ter batido num muro, fui dominado pela contemplação pura: desde o rosto alvo de Nico fundido-se na areia branca do deserto, passando pelo ritual do fogo de Clementi, tudo redundava numa sucessão de quadros de uma beleza inenarrável. Isto enquanto Nico ia dizendo O König las dir leiten...
O rei certamente não era eu, mas sim Pierre Clementi, que se passeava pelo écran. Apesar disso deixei-me guiar pela magia cromática de um filme de contrastes e símbolos incontáveis. Afinal, há momentos em que o Cinema é bem mais do que uma pura intelectualização ou tentativa de explicação* do que se vê. É, também, um acto de contemplação que roça o irracional, dominando os sentidos e deixando-nos guiar pelo sensualismo dos espectros projectados na tela e que nós próprios vamos projectando vida fora...
É o apelo aos instintos primitvos, à fusão com os elementos que compõem a vida e que, por mero acaso, pululam neste filme ímpar, que, por mais revisionamentos que lhe dedique, subjuga-me e domina-me, pois é uma força da natureza, a mesma cujos elementos são convocados durante a projecção e que acabam por deixar uma cicatriz interior bem profunda neste espectador de ocasião.
*no caso concreto até tenho ideias bem definidas, mas, como dizia Caeiro, pensar incomoda como andar à chuva e a beleza suprema do filme de Garrel faz esquecer a necessidade de pensar muito sobre o que se vê.