domingo, novembro 25

Ontem como hoje


Ver Brandos Costumes, Alberto Seixas Santos, tentando desligá-lo do contexto em que foi criado é uma tarefa impossível: a metáfora da morte de um pai que mais não é do que o tirano de sal e azar é um retrato vincado e acutilante da sociedade portuguesa da década de '70.
Produto de difícil catalogação, entre o documentário e a ficção, Brandos Costumes é um ensaio social onde estão bem traçadas as fronteiras de todos e cada um numa dada sociedade: o pai que manda, a criada que faz, a mulher beata e as filhas algo perdidas. Tudo construído em contraste, provocando assim uma cadeia de choques contínuos. Vanguardista, retórico, exagerado e, não obstante, algo que marca, nem que mais não seja pelo cuidado tratamento do português, ou não fossem os diálogos uma sucessão de rimas.
Tarefa mais interessante - e simultaneamente mais curiosa - seria a tentativa de fazer a ponte desta família fechada em si mesma e num espaço opressivo para os tempos que correm. Bem vistas as coisas, continuamos fechados num passado distante, procurando identificar-nos no primeiro que tenha um mínimo de carisma. Projectamo-nos no infinito, num arquétipo. Em Brandos costumes era o pai tirano, hoje é a tirania das modas fugazes e voláteis. Será que os discurso do pai e da mãe - citações de Salazar o mais das vezes, sublinhe-se - estarão obsoletos hoje, ou teremos sido nós que pouco evoluímos?