domingo, julho 15

De Deus, do Diabo e da Terra do Sol*

À minha caríssima Miss Blues, à guisa de penitência por tê-la deixado à mercê de uma Armada atlântica:
Sabe-se que o Ser Humano tende a guiar-se pela conveniência. O mais das vezes porque está encandeado por uma qualquer visão miraculosa capaz de cegar. É a incapacidade de pararmos e olharmos para o lado. Tal como um jumento numa carroça, apenas vemos o que está à nossa frente. Nem mais, nem menos. A dada altura, no filme do Glauber, sugere-se que se deve matar todos aqueles que fazem o Mal. A beleza da evolução civilizacional está, precisamente, em não o fazer, em limitarmo-nos a largar um sorriso trocista e seguir em frente quando não gostamos do pedaço inútil de criação com que temos a infelicidade de trocar palavras de circunstância. Também no filme do Glauber (Deus e o Diabo na Terra do Sol, obviamente) sugere-se que a carabina certeira de António das Mortes será o meio infalível para alcançar a guerra da libertação: uma vez mortos os ícones de ambos os lados da contenda (Deus e o Diabo, claro), tudo se resumirá à libertação, rectius revolução que lavará o sertão de mágoas e crimes.
Nos tempos modernos, o mais das vezes, a visão que cega um comum pedaço de criação resume-se à espuma ilusória e fugaz de uns quaisquer 15 minutos de fama. A revolução que libertará o sertão talvez seja a capacidade de distinguir essencial de acessório, a capacidade de perceber que, mais do que procurar fama e reconhecimento, o que é essencial é deixarmo-nos guiar pelas pequenas coisas, aquelas que importam verdadeiramente (e que vão desde um envergonhado raio de sol atravessando o cortinado passando pelo sorriso cândido e ingénuo de um petiz). Mais do que uma revolução violenta, apenas importa a revolução silenciosa da mentalidade, o António das Mortes que dá pelo nome de bom senso, aquele capaz de postergar o manto diáfano da aparência, fixando-se no Eu verdadeiro.
*Ou: uma espécie de metáfora moderna em 15 linhas.