sábado, julho 14

Belle toujours, um belo divertimento moral

Não nos iludamos: para saborear ao máximo Belle toujours, de Manoel de Oliveira convém conhecer minimamente quer o objecto homenageado - Belle de Jour, de Luís Buñuel - quer a obra de Buñuel*, dado que, ao fim e ao cabo, Oliveira traça um singular (e salutar) diálogo com a obra buñueliana. Fazendo-o, dá-nos um aparente divertimento musical que encerra uma profunda reflexão existencial, que vai desde a sexualidade à religiosidade. Tudo isto através de uma sábia gestão dos silêncios, dos gestos e da própria palavra.
Este é um retrato das sombras do tempo e das suas marcas ou não estivessemos perante o reencontro de Husson e Séverine e, paralelamente, é também uma comédia de costumes, já que, a toda a hora, vemos lançadas farpas sobre o matrimónio. Mas - homenagem das homenagens - tudo redunda numa elipse monumental: Séverine e Husson reencontram-se sem nunca sabermos o que este disse ao marido de Séverine. Acto contínuo veremos um momento Buñueliano: um galo atravessando uma porta. Oliveira esquiva-se a procurar explicar, rectius tentar. Daí que Belle toujours seja uma homenagem ao outro mestre Ibérico, revisitando as suas personagens, o seu ambiente surreal e um dos seus recursos preferidos: a elipse. Se é certo que Belle toujours é um profundo ensaio sobre a existência, a solidão e o amor, não menos certo é que tal ensaio está ancorado nos sólidos alicerces da elipse.
Tudo parece pairar de forma surreal em Paris, tudo se constrói graças a puros acasos e, não obstante, tudo faz sentido neste belíssimo filme. Algo que só está ao alcance de poucos.
* Frase propositadamente redutora. Também se homenageia, por exemplo, o Cinema Mudo. Veja-se o encontro de Séverine e Husson frente a uma montra.