terça-feira, março 20

Em Il conformista (publicado entre nós pela "Livros do Brasil"), Alberto Moravia glosa e tece variações sobre dois dos temas recorrentes da sua obra: a amoralidade e o desejo de normalidade. Na adaptação cinematográfica, Bernardo Bertolucci assina um dos seus melhores filmes (a par de Prima della Rivoluzione e La strategia del Ragno).
Ao invés de adoptar a estrutura narrativa linear da obra de Moravia, Bertolucci constrói o filme a partir de uma sucessão de complexos - e deslumbrantes - flashback's, aliados ao experimentalismo do autor, desde alguns planos oblíquos, passando por cenários opressivos (veja-se o Gabinete do Ministro, de um branco hermético, apenas manchado pelo fato escuro daqueles que por ele passam), que confluem para simbolizar a ascensão e queda do fascismo. Fica, pois, a educação de Marcello Clerici como exemplo: um homem de passado obscuro que tenta apagar incidentes comprometedores do passado e que não se coíbe de agarrar oportunidades para abraçar um novo presente, como se pode ver no segmento final em que acusa um velho motorista de fascista.
Bertolucci não deixa, assim, de demonstrar um dos traços mais negativos da personalidade humana: o oportunismo. Mas oferece-nos, também, o retrato do papel da individualidade num aparelho organizado de poder: não há lugar para ela. Todos são substituíveis e não passam de assassinos de substituição. Daí que haja uma total e flagrante ausência de sentimentos básicos. Tudo se resume a cumprir uma tarefa (por mais execrável que seja) e, por vezes, assistir de forma contemplativa à execução da mesma, como se pode ver no excerto supra.