domingo, março 18

Jardins en Automne

Vincent, ministro do Governo francês é demitido e, em consequência, perde todas as regalias que acompanham o seu posto. Acto contínuo, ao invés de cair em depressões profundas ou ser dominado por ataques de raiva, opta pelo regresso à sua condição de cidadão comum, voltando, para o efeito, ao seu velho apartamento.
Com esse regresso, vem também a (re)descoberta dos pequenos prazeres: desde os passeios sem destino pela cidade, passando por tertúlias gastronómicas. É a mudança de posto que traz uma total e completa reorganização da escala de valores. De forma simplista, pode-se dizer que o dever cede o lugar ao prazer. Estamos assim perante um dos traços do Cinema de Iosseliani: a primazia do prazer, visto como meio de obter a felicidade.
Nesa procura, temos, ainda, a oportunidade de topar com a mundividência de Iosseliani, que não deixa de satirizar, de modo cruel, o mundo da política, enquanto nos oferece uma saudável convivência cultural, já que pelo filme vemos confraternizar padres ortodoxos, japoneses, africanos...
Em Jardins en Automne ganha força a ideia de que os homens comuns poderão atingir mais facilmente a felicidade, dado que não estão sujeitos às restrições de figuras públicas - Vincent é, pois, o exemplo prototípico. Mas ganha também relevo o desencanto para com o Mundo, já que assistimos a um voltar de costas à realidade e à consequente necessidade de procurar a felicidade num qualquer outro local.
Resta agora esperar que Jardins en Automne tenha distribuição comercial. Seria um crime se tal não acontecesse.