sexta-feira, outubro 27

Fusão

Não há solidão maior do que aquela do samurai, excepto a do tigre na selva, talvez...

Com esta frase - alegadamente pertencente ao Livro do Bushido, mas, na verdade, da autoria de Jean-Pierre Melville - o espectador vê-se perante o traçar de fronteiras do tom e do ritmo de Le Samouraï. Ora, o que mais impressiona nesta frase singela é a sua capacidade para reafirmar a total independência de Jean-Pierre Melville enquanto autor e, simultaneamente, por a nu uma das principais características dos protagonistas do noir: a solidão.
Com efeito, personagens como Philip Marlowe (da obra de Raymond Chandler) e Sam Spade (criado por Dashiell Hammett) sempre tiveram como traço comum o facto de, tal como um herói pícaro, movimentarem-se sózinhos, de modo a resolver os mistérios com que se deparavam. O noir, mais do que uma atmosfera, acaba, assim, por ser também a afirmação (elogio?) da solidão, como única confidente e fiel conselheira.
Todavia, se no noir clássico o herói acaba por movimentar-se a partir dos instintos, contrariamente ao que se verifica no policial de primeira geração (Agatha Christie, Rex Stout ou S.S. van Dine, por exemplo), onde impera a pura lógica, em Le Samouraï vemos, de certa forma, o reunir do melhor desses dois mundos: Jeff Costelo, assassino frio e implacável, pauta a sua conduta por um código rígido, mas acabará por quebrar as rotinas, cedendo às emoções e, desse modo, acabará por selar o seu destino de forma trágica.
Assim, talvez se possa definir esta capacidade de fusão/simbiose como reflexão pós-moderna. Le Samouraï, mais do que um filme sobre filmes, é um filme que sintetiza a tradição prévia, modelando-a e refundando-a. Algo que Melville já vinha fazendo desde o seminal Bob le flambeur.