quarta-feira, julho 19

O filme perfeito

Marcello Mastroianni e Anita Ekberg em La dolce vita
A Roma do boom económico, o advento da cultura iconográfica, o esvaziamento do Homem. La dolce vita funciona, assim, como o retrato seco e cáustico da sociedade italiana do pós-guerra.
Rectius, Fellini traça o retrato de qualquer sociedade moderna. Num Mundo cada vez mais efémero, onde o que conta é aparecer e ser conhecido, acompanhamos Marcello, o jornalista que deseja ser escritor e que se apaixona por mulheres que não pode alcançar: desde a distante a misteriosa Madalena, passando pela exuberante e voluptuosa Sylvia. Em deambulações constantes pela cidade, limitamo-nos a ver uma sociedade fútil e diletante em que apenas o sexo e o dinheiro contam.
Marcello é, assim, o Homem abandonado. Apesar de ter encontrado um porto seguro no seu mentor, Steiner, acabará por ficar votado à sua sorte quando se apercebe que o pai de família se suicidou e, simultaneamente, matou os seus filhos. Ora, tal como Steiner pôs cobro à vida, também Marcello vai, paulatinamente, aniquilando as résteas de Humanidade que o ligam à felicidade, chegando ao ponto de perder a pureza. Num dos mais belos momentos do Cinema veremos a jovem e inocente amiga de Marcello acenando na praia. Separados por um braço de água, olhares fixos um no outro, veremos a expressão de Marcello alterarar-se, como que tomando consciência da inocência perdida. Marcello deixou de o ser. Foi corrompido. Tal como nós.
Filme intemporal, La dolce vita tem o mérito de fazer a prognose da realidade que hoje impera: jornalistas ávidos por escândalos, as notícias imediatistas e sensacionais (veja-se a sequência do pretenso milagre), a cultura do belo, efémero, do ícone...sempre embalados pela música do mágico Nino Rota, o outro ilusionista, Fellini, o Mestre, dirigiu uma sinfonia moral. Marcello acabou por ser, a final, o figurante a quem tudo acontece. Foi (e é) o exemplo do homem abandonado, quer pelo mentor, quer pelo pai que, numa visita a Roma, demonstra ser realidade bem diferente da imagem construída pelo filho. Será caso para dizer que La dolce vita é o filme que aborda tudo aquilo que não temos e queremos ter? Será o filme das ambições frustradas? Talvez.
Em todo filme perpassa a sensação trágica da incapacidade de alcançar a paz e a harmonia. E esse pathos avoluma-se à medida que se somam as desilusões. Apenas haverá lugar para felicidas aparentes. Talvez por isso vejamos tantas deambulações (não serão peregrinações?) a festas. A festa, que mais não é do que o ponto máximo da decadência, funciona como escape. E após vermos manifestações exuberantes de (falsa) alegria, sobrará apenas lugar para o grande vazio. Todos são solitários e sofrem em silêncio. As festas serão, apenas, a mera panaceia dos males da Alma.
La dolce vita agrega, assim, o que há de melhor no cinema italiano, superando-o. Temos uma análise social digna de Visconti, planos que fazem lembrar Antonioni (tal como o próprio alheamento das personagens), mas, mais importante, temos Fellini. Num Mundo paredes meias entre Sonho e Realidade, vimos o retrato puro e duro da condição humana: esteticamente bela, moralmente reprovável.
La dolce vita é, pois, o filme perfeito.

9 Comments:

Blogger Ricardo Martins said...

Pelo menos no dia de hoje (relembrando a história, graças ao teu texto), este é o filme da minha vida.

2:50 da tarde  
Blogger Francisco Mendes said...

Inquestionavelmente PERFEITO... fotograma a fotograma!
Nesta obra intemporal que acondiciona as origens da palavra paparazzi, Fellini volta a produzir poderosas respostas emocionais no espectador de então e no observador hodierno.

Senhor Fellini... Namasté!

Cumprimentos Hugo.

8:56 da tarde  
Blogger Paulo Anjo said...

Concordo plenamente!
Um pouco à semelhança do apontado por Nietzsche na Origem da Tragédia sobre a condição humana trágica do Homem e como o mesmo a esconde com um véu de perfeição e beleza das formas.

Saudações!

3:38 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Nietsche?? Vamos por partes.

Fellini tinha o hábito de dizer que não era intelectual, por isso imputar influências deve ser feito com cautelas.

Neste caso, a grande influência é a estrutura narrativa similar à de "Em busca do tempo perdido" de Proust. A narrativa, tla como na magna opus de Proust é fluida e descentralizada. Corre, por assim dizer, como um rio...

Acho que é ligeiramente precipitado (será mesmo?) chamar à colação um dos escritos do jovem Nietzsche, sobretudo tendo em consideração a evolução do pensamento dele. "La dolce vita" é, creio, (mais) um filme verdadeiramente pós-moderno. E, nesse particular, Nietzche foi pioneiro: exprimiu como poucos a ideia de alienação, da incapacidade de ser capaz de viver na realidade que percebe.

"A origem da tragédia"? Talvez. Nihilismo? Certamente. Todos se comportam como comportam em consequência dos inúmeros fracassos na busca do sentido. (e isto é, também, Nietzsche). É daqui que sairá uma das premissas do pós-modernismo (latissimo sensu) e serão essas, julgo, as influências mais directas de Fellini. (não estará o nihilismo já latente na "origem da tragédia"? Ora, este comment já está verdadeiramente circular...tal como o filme)

Paulo, para quem dizia que "la dolce vita" não tem rumo" e era "secante", detecto uma grande evolução. Ainda bem! :-)

6:03 da tarde  
Blogger wasted blues said...

Nunca vi...

(nota: colocar aqui um smiley bem corado)

11:02 da tarde  
Blogger Tiago Barra said...

Na discussão sobre o tema literário-filosófico trazido à "mesa": «o Ser incapaz de viver na realidade que percebe» não resisto em (re)lembrar Richard Bach na sua obra-prima transversal (da qual me escuso de citar o título dado que é sobejamente conhecida): "Todo o vosso corpo, desde a ponta de uma asa até à ponta de outra asa - costumava dizer Fernão - não é mais do que o vosso pensamento, uma forma que podem ver. Quebrem as correntes de pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo".

4:16 da tarde  
Blogger Hugo Alves said...

Desse senhor para Nietzsche vai uma pequena grande diferença, mas enfim...

Sou daqueles que ao ver Fellini prefere por de lado as influências (algo que o próprio desejava). Mas há lugares paralelos: estes peregrinos das festas e das cidades fazem lembrar as personagens de Antonioni...

La dolce vita vale, simplesmente, per se. :-)

4:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

e do proprio Marcello ninguém diz nada? ele faz de qualquer filme um filme memorável. lembram-se dos "olhos negros"
anac

3:41 da tarde  
Blogger 奇堡比 said...

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