sexta-feira, setembro 26

Escapismo


Gostava de ser como Teixeira de Pascoaes: esquecer o mundo das leis, dos códigos e do papel de embrulho que alguns tribunais fazem deles, refugiando-me no ritmo cadenciado e ditado pela Lei Natureza, como forma de telurismo existencial. Como faltam o engenho e a arte, fico-me pelo Cinema, preferencialmente o Cinema "com nervo". Aquele tão intenso onde até ouvimos as palavras a arfar no peito dos actores, devida e ponderadamente embalados pelo vento que serve de moldura à cena. Um Straub-Huillet é sempre o porto seguro dos dias difíceis. E poucos subtítulos são tão luminosos como o de Nicht Versöhnt: apenas a violência ajuda onde a violência impera. ["nur Gewalt hilft wo Gewalt herrscht"].
Adenda: dei por mim a ler o Elogio do Passeio Público, de Filipa Martins. Gostei, mas nada que me tire o Cinema "à flor da pele" de Straub. Não é uma questão de elogiar ou contemplar quem passa ou quem vemos. Pelo contrário, tudo se resume a, à imagem das palavras que queimam o peito das personagens de Straub-Huillet, a procurar combater o que nos rodeia. Mais do que contemplar, resististir. [e, note-se, isto é, apenas, brincar com o título do livro de Filipa Martins. Nada de confusões, que não sou crítico literário. Mas que gostei do livro, lá isso gostei]