domingo, novembro 23

Fantasmas

O preto e branco, sim. Mas, acima de tudo, a capacidade de recorrendo às técnicas mais simples: a mudança de sequências a ecoar no mudo, produzir uma obra belíssima. Recorrendo às preciosidades do mud, sempre se dira que, da mesma forma em que vemos a imagem fechar-se sobre si, caindo o preto no écran, também este é um filme onde Garrel volta a centrar-se sobre si e os seus fantasmas, re-analisando paixões passadas.
Mais importante, é um filme belíssimo, lembrando o amour fou de Breton e, de certa forma, o cinema poético que o próprio Garrel fazia na década de 70. Afinal, existem ali passagens que ecoam Athanor. Filme de silêncios, de vozes interiores que nos transportam do consciente para o inconsciente, do real para o surreal. Um limbo, uma fronteira, precisamente a fronteira anunciada pelo título e que dá o mote para o quem vem: La frontière de l'aube, a incpacidade de distinguir real de sonho. A capacidade de levar a poesia a modo de vida, mesmo que seja um amor doentio e trágico.