terça-feira, janeiro 15

Flutuar, ma non troppo


Depois de rever Nuvens flutuantes, de Mikio Naruse são muitos os pensamentos e muito poucas as palavras para descrever o que se viu e sentiu. Qualquer palavra seria, provavelmente, um insulto ou uma ideia mal expressa. Fica, apesar de tudo uma certeza: muito dificilmente um cineasta filma com tanta ternura as mulheres. Onde Mizoguchi contempla, Naruse acaricia, faz-nos sentir colados ao pathos feminino. Dificilmente um cineasta é capaz de transformar o quotidiano em algo tão belo*. Trágico, mas belo, ou não fosse este um cineasta do real, das traições e das desilusões. Quase que se diria um cinema de conformismo, já que não se coíbe de mostrar e explorar as limitações das pessoas aqui e agora perante uma dada dificuldade. Dir-se-ia que a poesia fica de fora, dando lugar a uma espécie de recriação do real. Flutuar, sim. Ma non troppo.
*excepção feita a Yasujiro Ozu, claro. A depuração formal e a elegância do seu Cinema (será Ozu lento?) conseguem ecplipsar a secura e o realismo de Naruse. Mas esta, provavelmente, é uma mera impressão apriorística.