quinta-feira, janeiro 10

Paixão, expiação e projecção


A cada revisionamento - e já são muitos - há sempre um momento de Vivre sa vie que me desarma completamente: é aquele em que Nana vê a projecção de La passion de Jeanne d'Arc, de Dreyer. Momento singular onde temos uma síntese quase perfeita* das obsessões do Cinema de Godard: a paixão pelo Cinema, o recurso à citação e consequente metalinguagem, a paixão pela mulher - e logo com Anna Karina, musa do cineasta - devidamente conjugados para produzir um momento sublime: Nana chorando, vendo a paixão de Joana no écran e, porventura, projectando-se ela própria no seu sofrimento, como que antevendo o desfecho trágico que se adivinha.
Quase síntese porque, curiosamente, em Vivre sa vie temos um Godard perfeitamente despojado no mise-en-scène (como que lembrando/antevendo o que o casal Straub-Huillet viria a fazer e já era perseguido formalmente por Bresson), de molde a concentrar-nos numa história de paixão. Não daquelas folhetinescas e sensaboronas. Aqui paixão é sinónimo de expiação, já que somos testemunhas da catarse de Nana, que é empurrada para a estrada da perdição por uma sociedade cega e insensível. Um quase que, por sinal, é, entre muitas coisas, uma metáfora poderosíssima da injustiça social. Um quase que é Cinema em estado puro, enleando-nos, compadecendo-nos e, a final, fazendo-nos partilhar a morte de Nana, como se fossemos nós próprios a fracassar e a viver convencidos da veracidade de uma falsa liberdade.