sexta-feira, março 23

Inevitabilidade trágica

Se é certo que o Homem constrói e guia o seu próprio destino, também é inegável que Jean-Pierre Melville procura negar essa evidência. Em Le cercle rouge, o vermelho do giz, para além de sinónimo de sangue e morte é também o símbolo da unidade do destino dos cúmplices de Corey, bem como do próprio plano que se propõem levar a cabo. Será o círculo que os guiará e que ditará o que desde cedo se avizinha: a inevitabilidade da morte.
Tal como a frase que abre Le Samouraï - Il n'ya de plus profonde solitude que celle du Samouraï si ce n'est celle d'un tigre dans la jungle...peut-être... - também em Le cercle rouge temos uma frase anunciando o motto do filme (ver foto). Ambas são da autoria de Melville e ambas resumem o conteúdo programático do seu Cinema. Porque, no fim de contas, para lá do rigor e meticulosidade do seu estilo, Melville elabora profundos ensaios sobre a existência. Não há maior melancolia e dimensão trágica do que a do cenários urbano. Melville, percebeu-o melhor do que ninguém e curou de glosar e ilustrar as variações que este cenário frio e abstracto impõe.