domingo, maio 18

Heresias, ou da acrítica

um post falsamente reflectido e assaz desencantado:
À saída do Les Parapluies de Cherbourg, devidamente enleado pela magia das notas e pelas cores fulminantes, não deixei de ouvir um lamento duas filas atrás de mim: Isto é cantoria a mais. Horas antes ouvi algo ainda mais inaudito: Aquilo do Playtime é ridículo. Qual é o sentido de ver os disparates da quele velhadas? Do mal o menos, sempre me pouparam ao já clássico: Qualquer coisa é mais emocionante do que um filme do Manoel de Oliveira. É em alturas dessas que, interiormente, lanço um comedido e sopesado Bardamerda p'ra isto. Bardamerda irónico com o seu quê de tristeza, claro está.
Barbaridades destas são, tão-somente, o resultado da alimentação fast-food cultural: receber acriticamente idéias pré-concebidas e, acto contínuo, papagueá-las à exaustão, de forma convicta, contra qualquer pedaço de criação que, de alguma forma, tente lançar-se contra este lodaçal. Caro leitor de ocasião, se julga que isto é o mero lamento deste projecto de cinéfilo, faça as devidas adaptações a outros campos. Certamente verá que esses grandes génios literários como José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto ou Paulo Coelho* serão modelos de conduta contra "coisas" como um Pavese ou um Walser (é sempre conveniente explicar que não são nem marcas de vestuário nem automóveis, diz-me a experiência). Uma Velho da Costa, um Rui Nunes, uma Llansol ou uma Teresa Pereira. Uma Adília Lopes ou um Pimenta. Triste país de entretantos este que, estultamente, continua alegremente a exibir a incapacidade de pensar naquilo que lhe oferecem sem pensar nos méritos que têm.
Repara bem, paciente leitor, que o lamento nem é de agora: já o Eça terçava armas contra as sebentas. Isto que se vai ouvindo da, passe a expressão, vox populi é precisamente isso: a sebenta oferecida pelo-aparelho-instrumentalizado-no-luso-quintal-para-estupifidicar-o-cidadão, vulgo televisão.
* Lobo Antunes e Saramago já não entram nestas contas. Foram institucionalizados - a Agustina para lá caminha também - e qualquer um fala deles. Permito-me duvidar que muitos os tenham lido. Estudos empíricos, perdão, várias conversas informais em que este que ora vos escreve é o mínimo denominador comum, permitem-me deduzir tal facto. E não, desde já confesso que não li tudo de ambas as "instituições". Infelizmente, falta o tempo.

1 Comments:

Blogger Sabrina. said...

Não deixo de ver alguma razão naquilo que dizes.
Já adoptei postura quero-lá-saber. Se há tentativas de abrir portas novas, das mais longínquas no corredor aos que me são queridos, e os resultados se mostram nulos, acabei no egocêntrismo. Porque também percebi que não se ensina a gostar e porque também me "falta o tempo" para conhecer tudo o que gosto. E é aí que deposito os meus esforços.
Nos dias de hoje, está tudo ao alcance de quem quiser. As escolhas são pessoais, e aquilo que alguém escolhe ver, ser, gostar também. E eu não tenho nada a ver com isso.

- Se a questão se prende com o "projecto de cinéfilo", então já poderá haver outra implicância. Poderás ser cineasta? Poderão as maiorias não te valorizar? Certo, mas, na verdade, não será esse o teu verdadeiro valor, explicitado na diferença em relação à maioria?

Gosto de cá vir.
Um beijinho.

10:06 da tarde  

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